Sabrina Noivas 118 - Monahan's Gamble

Tudo que ele queria era ganhar 1 aposta! Sean Monahan adorava desafios, por isso aceitou apostar que namoraria a linda Alicia Pulaski, a nova garota da cidade. Se conseguisse sair com ela por mais de 1 ms teria sua fama de conquistador fortalecida e finalmente ganharia 1 aposta. Mas envolver-se com aquela mulher significava perigo...Alicia j sofrera 2 decepes amorosas e no pretendia arriscar o corao mais 1 vez. No entanto, depois de sair com Sean durante quase 1 ms, ela comeou a mudar de ideia...

Digitalizao e correo: Nina


Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2001
Publicao original: 2000. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo
 
Srie Monahan (Ou Srie Marigold,Indiana)
Ordem	Ttulo	Ebook	Data
1	First Comes Love
Julia 1123	Oct-20002	Monahan's Gamble
Sabrina Noivas 118	Dec-20003	The Temptation of Rory Monahan
Juia 1160	May-20014	The Secret Life of Connor Monahan
???	Dec-2001

    










CAPITULO I

No havia nada que Sean Monahan gostasse mais do que um jogo de pquer com seus irmos. Sean era um jogador por natureza, e um vencedor desde o nascimento. Quando se arriscava, sempre acabava ganhando. E no havia nada que o agradava mais do que desafiar sua prpria famlia.
Esse era exatamente o tipo de sujeito que ele era.
Ele, dois irmos e dois amigos, haviam jogado pquer por mais de uma hora, e Sean j ganhara um bocado. Melhor ainda, ganhara quase tudo do irmo mais velho, Finn. Se continuasse assim, logo teria o dinheiro para pagar a entrada daquele novo roadster, o automvel que namorava havia meses.
Sentado na cozinha do elegante e enorme apartamento de Finn, Sean olhou para Cullen, um dos trs irmos mais novos, tentando adivinhar as cartas que teria, observando a expresso do rosto. Ao faz-lo, deu uma baforada no charuto que fumava, aspirou o aroma picante do chili que Finn preparava, e ponderou se deveria, ou no, pegar mais uma cerveja gelada. Ou se deveria esperar que algum se levantasse, provavelmente Finn, e lhe trouxesse uma.
A vida no poderia ser melhor.
	Onde est Will?  perguntou, estranhando a ausncia do melhor amigo de Finn, desde criana, e membro constante do grupo que jogava pquer duas vezes por ms, acompanhado de chili e cerveja.
O irmo mais velho riu e respondeu:
	Will tinha alguns assuntos para resolver  disse misterioso.  Ele est com muitas ideias na cabea.
Charlie Hofsetter, outro membro do grupo de cinco amigos, ergueu o olhar.
	 por isso que andou to estranho a semana passada? Nunca tinha visto Will assim.
Finn riu de maneira maliciosa, deu uma baforada no charuto e passou a mo pelos cabelos escuros.
	Como disse, tem assuntos para resolver.
	E o que isso significa?  insistiu Sean, tambm passando a mo por entre os cabelos, e pensando que tanto ele, quanto Finn, precisavam cort-los.
	Logo sabero  disse Finn, sem mais explicaes.
Sean resmungou impaciente.
	Sempre acha que sabe tudo, Finn.
	 porque sei mesmo  confirmou o irmo.
Sean queria muito protestar, mas no o fez. De certo modo, ele concordava que Finn tinha sempre razo. E esse era um trao muito incmodo em um irmo mais velho.
	Gordon tambm no veio. O que houve?  perguntou Sean, imaginando porque nenhum dos outros havia falado nisso.
Cullen suspirou dramtico.
	Gordon est com o corao partido  disse em um tom de voz choroso, tirando uma baforada do charuto.
Sean riu sem acreditar.
	Isso  novidade. Eu nem sabia que Gordon tinha corao. Quem  a garota?
Cullen mudou o charuto de posio, levando-o para o outro canto da boca, e resmungou.
	Alicia Pulaski.
	Alicia Pulaski?  repetiu Ted Embry incrdulo.  Por que ele saiu com ela? Todos sabem que Alicia nunca namora ningum mais de um ms.
	Um ms lunar, para ser exato  corrigiu Charlie.
	Ela  estranha  comentou Ted.
	Liberada  corrigiu Finn.  Acho que a palavra certa para uma mulher como ela  liberada.
	Uma batata quente parece mais adequado  acrescentou Cullen.
Nenhum dos homens discordou, incluindo Sean. Na verdade, todos pararam de falar por um momento, como se pensassem no assunto. Por fim, Ted disse:
	Acho que entendo por que Gordon saiu com ela. Mas ele sabia que no devia ter colocado o corao nesse caso. Alis, no devia ter colocado nenhuma parte do corpo alm do... 
	Voc a viu no casamento de Josh e Louisa no ms passado? 	interrompeu Charlie, em um tom reverente.
Era verdade, reconheceu Sean. Ele a vira, e Alicia parecia perfeita para... Bem, muitas coisas, todas elas no muito decentes. Ela usara um vestido quase transparente, e, durante a recepo, na tarde ensolarada, todos os homens presentes suspiravam quando ela ficava contra o sol. Era como se estivesse nua, j que as linhas do corpo perfeito eram ntidas sob o vestido fino. O chapu de palha que usara no combinava com o vestido, e a aba larga encobria-lhe o lindo rosto, embora ningum estivesse prestando ateno no rosto de Alicia, admitiu Sean.
Em geral, no era o que acontecia, porque Alicia era mesmo linda. E quente, como Cullen dissera. Os longos cabelos ruivos desciam em cascata at o meio das costas. Os olhos tinham a cor do mais puro usque irlands, e o mesmo poder de embriagar. As mas do rosto altas e cheias, o nariz um tanto arrebitado, davam a impresso de que posara para uma srie de pinturas clssicas. E a boca...
A boca...
Sean poderia escrever poesia sobre aquela boca de lbios cheios e provocantes. A pele sempre parecia dourada, independente da estao, e Sean sabia que no havia marca de biquini naquele corpo. Alicia Pulaski, uma mulher liberada, quente, livre e independente, parecia exatamente o tipo de garota que tomava banho de sol nua.
	Gordon vai se recuperar  disse Charlie, arrumando as cartas que segurava.  Afinal, todos que namoram Alicia acabam se recuperando. Algum dia...
	Ainda no entendo por que Gordon se envolveu com ela 	disse Ted.  Afinal, todos sabem que ele est procurando um relacionamento duradouro, e no h ningum na cidade que desconhea a regra de quatro semanas de Alicia. E que se aplica a todos os homens.
		Por que ela estabeleceu essa regra?  perguntou Cullen. 	Nunca entendi o motivo.
Sean ergueu o olhar, e viu Ted dar de ombros.
	No tenho ideia  disse Ted.  Mas desde que se mudou para Marigold... Dois anos atrs? Sempre deixou isso muito claro. Acho que estabeleceu essa regra h muito tempo.  E pegando uma carta no monte sobre a mesa, acrescentou:  Gordon teve sorte. Ficou com ela quatro semanas. Alguns nem passam da primeira.
	Ela  mesmo estranha  disse Ted, de novo.
	Liberada  corrigiu Finn.
	Bem, o que quer que seja, no pretendo convid-la para sair  anunciou Cullen.  Tenho problemas suficientes com as mulheres. No preciso de uma que se preocupa com o tempo em que estamos juntos.
	Nem eu  concordou Charlie.  No acredito que haja um s homem em Marigold, ou melhor, em todo o Estado de Indiana, que consiga ficar mais de quatro semanas com Alicia.
Sean sacudiu a cabea lentamente, observando as cartas que Ted abria na mesa.
	Eu poderia namorar Alicia por mais de quatro semanas 	afirmou srio.
	Voc?  Um coro de vozes incrdulas ecoou  volta da mesa.
Sean reagiu com indignao ao ver a descrena dos amigos. 
	Eu mesmo.  que h de to surpreendente nisso?
Os amigos o observaram em silncio, at que Finn falou.
	O que o faz pensar que Alicia sairia com voc? E ainda mais, por que duraria mais do que a regra de quatro semanas do calendrio lunar?
Sean deu de ombros.
	Sei do que sou capaz.
Todos riram, e Sean reagiu mais uma vez.
	Posso saber o que  to engraado?  perguntou.
	Ns podemos dizer...  respondeu Finn, sem parar de rir  ...mas no tenho certeza de que voc vai gostar.
	Ora!  gritou Sean indignado.  As mulheres me adoram!
	Alicia  diferente  disse Cullen.
Sean acalmou-fle um pouco ao ver que, pelo menos, Cullen no negava seu sucesso com as mulheres. Afinal, era verdade. As mulheres adoravam Sean. Mesmo que fosse por algumas semanas. Sean lanou um olhar indulgente na direo do irmo mais velho.
	Alicia no  diferente. As mulheres so todas iguais. No ntimo, todas querem a mesma coisa.
Quatro rostos masculinos voltaram-se para ele, esperando que continuasse. Mas s Finn falou, lutando para no rir.
	E mesmo?
Sean assentiu.
O irmo mais velho riu malicioso.
	J que  um profundo conhecedor das mulheres...  provocou  ...pode nos dizer o que ?
	Receber salrios iguais aos dos homens  disse Cullen, antes que Sean pudesse responder.
	No. Querem um homem que lave as prprias roupas  disse Ted, rindo.
	No. Querem um homem que lave as roupas e faa tambm outros servios domsticos  disse Charlie.
	Muito engraado, espertinhos  retrucou Sean srio.
Por fim, os homens pararam de rir, e Finn virou-se para o irmo.
	Ento diga, Sean. O que todas as mulheres querem? Estamos ansiosos por saber.
Sean ergueu o queixo, em um gesto de desafio.
	Um anel de noivado  declarou.
Cullen olhou para o irmo com expresso maliciosa.
	Isso elas podem conseguir na loja de penhores do Huck por menos de vinte dlares. Trinta, talvez, se quiserem um especial.
	Um anel de noivado com um marido  esclareceu Sean, olhando os amigos e os irmos ao redor da mesa.
	Isso Huck no pode oferecer na loja  zombou Cullen.
	Sabem muito bem do que estou falando  suspirou Sean impaciente.  As mulheres, sem exceo, querem se casar. Querem encontrar algum especial, com quem possam viver para sempre. E ento esgotam o coitado de todas as maneiras financeira, emocional e espiritualmente, at que ele morre. As mulheres querem ser vivas.  isso.
No houve qualquer comentrio na mesa, at que Finn falou, em um tom urgente:
	Afastem-se, depressa! O crebro dele vai explodir!
Sean resmungou, mas prosseguiu:
' Escutem, s estou dizendo que, se Alicia Pulaski tem essa regra ridcula,  apenas para despertar mais interesse. Finn olhou para o irmo.
	Acho que posso falar por todos. O que quer dizer com isso?
Sean revirou os olhos exasperado.
	Alicia quer se fazer de difcil para fisgar um homem. Ela acha que, se tiver essa regra de um ms...
 Lunar  corrigiu Cullen. Sean continuou, ignorando o irmo mais novo.
	Isso s far com que todos desejem sair com ela por mais de um ms lunar  acrescentou, antes que Cullen o interrompesse de novo.
	Ento acha que no est falando srio quando diz que no quer namorar mais de quatro semanas?  perguntou Ted.
	 claro  respondeu Sean convicto.
	Ento por que nunca namorou algum por mais de quatro semanas?
Sean deu de ombros.
	Ainda no encontrou o homem certo, s isso. E tambm h outro motivo. Fica mais fcil livrar-se daqueles de que no gostou.
	E voc acha que  o homem certo  resumiu Charlie.
	Tenho certeza de que sou muito mais atraente do que vocs  disse, provocando-os.  E Gordon.
	 verdade. Em sua cabea, voc foi sempre o melhor  zombou Finn.
	Estou falando srio  insistiu Sean.  Alicia s quer atrair os homens, at encontrar o sujeito certo. Ento, ele j estar to envolvido, que ser fcil amarr-lo em uma linda fita prateada e lev-lo ao altar.
	E o que o faz pensar que, alm de namor-la por mais de quatro semanas, conseguir no se envolver e ser arrastado at o altar?  indagou Cullen.
	Como disse, conheo as mulheres  repetiu Sean.- Conheo o jogo delas, antes mesmo de comearmos a jogar. Serei o vencedor.
	Acredita mesmo nisso?  perguntou Finn.
Sean assentiu, afirmando novamente.
	Se existe algum capaz de namorar Alicia por mais de quatro semanas, esse homem sou eu  concluiu, sorrindo.
Finn mudou o charuto de lado, mastigando-o de leve, e observou o irmo. E ento, quando Sean comeou a pensar que talvez estivesse arriscando-se demais, Finn disse as palavras que, por trinta e quatro anos, tinham feito Sean desafiar o bom senso.
	Ento, prove, irmozinho. Prove.
Alicia Pulaski preparava a massa de um po de sete gros, quando ouviu o sino da porta da frente da Padaria Alicia tocar. Normalmente a porta estaria trancada quela hora da manh, mas ela trouxera algumas coisas para dentro ao chegar, e esquecera de tranc-la. Nem parecera necessrio, j que poucas pessoas estariam acordadas naquela hora em Marigold, Indiana, especialmente em um sbado. E os qe estavam acordados, por certo estariam trabalhando, ou a caminho de uma pescaria.
	Ainda no abrimos!  gritou, da cozinha.  Volte s sete.
Mas em vez de ouvir novamente o sino, quando a porta de fechava, Alicia ouviu apenas o silncio, indicando que o cliente ainda estava na loja. Ficou curiosa para saber quem estava l, mas nem um pouco preocupada com a segurana. Afinal, em Marigold, Indiana, no havia crimes.
Ela no estava sozinha ali. Havia as duas adolescentes que contratara para o vero, e tambm Louis, que vinha ajud-la todas as manhs. Ele tinha mais de um metro e noventa, ombros enormes e braos cobertos de msculos. A barba grisalha ia quase at a cintura, e na tatuagem do brao direito lia-se: Vindo do inferno. Ningum mexia com Louis. Nunca.
E ningum fazia bombas de creme melhor do que ele.
Alicia suspirou, jogando a longa trana ruiva sobre o ombro. Limpando as mos no avental, desceu as mangas da blusa, estilo camponesa, e ajeitou o leno que colocara sobre os cabelos. Deixando a massa de po crescendo, caminhou para a loja.
Imediatamente desejou ter ficado na cozinha e mandado Louis em seu lugar. No por qualquer ameaa a sua segurana. Mas porque Sean Monahan estava parado no meio da loja, como se houvesse acabado de acordar, parecendo ainda mais sensual. Os lindos olhos azuis brilhavam mais do que de costume, e ele nunca parecera to atraente. Alicia quase gemeu.
 claro que, encontrar um dos Monahan pela frente era algo previsvel. Afinal, em Marigold todos se conheciam e se encontravam o tempo todo. Ainda assim, sentia-se grata por ter demorado dois anos para acontecer. Tinha feito de tudo para evitar que acontecesse, pois a ltima coisa de que precisava era ter um homem charmoso, sensual, incrivelmente atraente, e solteiro, bem a sua frente. A mudana de Chicago para Marigold fora exatamente por isso.
Por duas vezes, envolvera-se com homens bonitos, atraentes e solteiros, que tinham prometido am-la e respeit-la por toda a vida. S que nenhum deles chegara ao altar. Tinham feito promessas, mas nenhum dos dois tinha aparecido na igreja.
Fora enganada duas vezes... A culpa s podia ser dela. Mas jamais seria enganada por trs vezes. Nem que tivesse que ir para o convento. S que no era catlica. Analisando as opes, decidira mudar-se para uma cidade pequena para realizar seu grande sonho de abrir uma padaria e fugir de homens bonitos, .atraentes e disponveis.
Ter seu prprio negcio e fugir de homens como Sean Monahan eram os motivos pelos quais se mudara para Marigold. Tinha imaginado que a vida tranquila, em uma cidade pequena, seria perfeita, porque era muito menos provvel encontrar homens atraentes e solteiros por ali. Bem diferente de Chicago, onde parecia haver dzias em cada esquina.
Alicia queria distncia, por um bom tempo, talvez por toda a vida, de homens assim. Mas enganara-se. Assim que se mudara para Marigold, percebera que a cidade tambm estava cheia de homens atraentes.
No topo da lista estavam os irmos Monahan. Eram cinco, admirou-se mais uma vez Alicia, fitando Sean. E todos tinham lindos olhos azuis, cabelos escuros e sedosos, e traos dignos de um deus grego. Todos eram lindos, atraentes e... solteiros. Para azar dela.
	Ol  cumprimentou, tentando evitar os olhos azuis e fingindo no notar os cabelos sedosos e os traos msculos.
S que, ao faz-lo, acabou apreciando o corpo atltico e forte. Vestindo jeans desbotados e camiseta preta, bem justa, o corpo musculoso era uma viso provocante demais para aquela hora do dia. Alicia suspirou, pensando que nem sequer tomara a segunda xcara de caf. Ao olhar para ele sentia-se preguiosa, com vontade de voltar para a cama... No para dormir...
	Posso ajudar?  perguntou, esperando que a voz no revelasse como estava perturbada.
Logo se arrependeu da pergunta. No s dava a Sean a oportunidade de flertar, como fazia o tempo todo com todas as garotas, como no havia nada em que pudesse ajud-lo. A loja no estava aberta, no havia po para vender. Mas, considerando o que sabia de Sean, e sabia um bocado, embora nunca houvessem se encontrado formalmente, por certo no estaria interessado em po.
Mas antes que pudesse se corrigir e dizer que no tinha nada para oferecer, ele sorriu, e o corpo de Alicia estremeceu. No podia imaginar-se tremendo daquele jeito por causa de um sorriso, mas o improvvel acontecera. Aquele era o tipo de sorriso que um homem nunca devia dar, a menos que ele e a mulher fossem muito ntimos.
	Eu s queria uma xcara de caf bem grande e quente
 disse ele, sorrindo de novo.
Alicia desejou que ele no houvesse dito as palavras grande e quente, porque, sem querer, viu-se olhando novamente para o corpo musculoso.
	Minha cafeteira quebrou  continuou ele.  Preciso dirigir por um bom tempo esta manh e no h nenhum lugar aberto to cedo.
Pare, Alicia, disse a si mesma. Ele no insinuara nada, mas de algum modo parecia que a voz dele era como dedos sensuais percorrendo-lhe o corpo. Como podia sentir isso?
	Bem...  hesitou Alicia, tentando no notar como ele era atraente.  No abrimos... e ainda estamos fechados  disse como uma tola. Ao pensar na palavra abrir, disse a si mesma que era exatamente o que gostaria de fazer naquele momento. Abrir seus braos para Sean Monahan. Era assim que reagia a homens como ele, e por isso devia evit-los a todo custo.
Sean fitou-a diretamente, e sorriu, fazendo um gesto na direo da porta de entrada.
 A porta est aberta.
Est mesmo, pensou Alicia, incapaz de deter aqueles pensamentos perturbadores. Por que no entra?
Imediatamente ela reagiu, afastando essa ideia maluca. Aquilo era a ltima coisa de que precisava, disse a si mesma, afastando o olhar do trax musculoso.
	Bem, a porta est aberta, mas a loja no  respondeu, orgulhosa por no gaguejar.
	Sinto cheiro de caf fresco  disse ele. 
	No  para vender,  s para os empregados. Aqui  uma padaria, sr. Monahan, no uma lanchonete.
Os olhos muito azuis pareciam divertidos, cheios de bom humor.
	Ento sabe meu nome - disse suavemente.
	Sei que  um Monahan.  uma cidade pequena, e todos os garotos Monahan se parecem  mentiu Alicia.  S no sei qual deles voc .
Mentira duas vezes logo pela manh. Poderia ser castigada e ir ao inferno por isso. E por que se referira a ele como um garoto? Sean Monahan era, sem dvida, um homem, e cerca de cinco ou seis anos mais velho do que ela.
Ele adiantou-se alguns passos, os lbios curvos em um sorriso sensual, que levara Alicia imaginar como seria fazer amor com ele, muitas e muitas vezes.
Sean s parou porque havia o balco entre eles, mas inclinou-se, cruzando os braos sobre a superfcie de vidro. Estava to perto, que Alicia podia ver a sombra da barba recm-feita, alm de sentir o perfume suave, e o calor que o corpo dele irradiava.
O instinto advertiu-a para recuar e correr. Mas continuou parada, esperando para ver o que ele faria. E esse foi o erro de Alicia. Porque os olhos azuis de Sean aqueceram-na por dentro, incendiando-a quando, na verdade, imaginava-se imune a qualquer sentimento.
 Eu realmente queria uma xcara de caf  disse ele suavemente.  Mas sabe, Alicia, j que ofereceu, h algo que pode fazer por mim, tambm.

CAPITULO II

Sean nunca estivera to perto de Alicia Pulaski e se perguntava por qu. Em geral, ficava por perto de garotas atraentes e solteiras, mas s se aproximara dela agora, e com um propsito definido. Era estranho, ainda mais que ela j vivia em Marigold havia dois anos, e ele mal podia se lembrar da inaugurao da padaria, trs primaveras atrs. O apartamento dele ficava ali perto, logo aps a esquina, e isso tornava ainda mais surpreendente o fato de nunca ter encontrado a srta. Pulaski. Ou ele estava perdendo o velho estilo, o que era impossvel, pensou Sean, ou Alicia fizera de tudo para evit-lo.
Seria possvel?
De qualquer modo, nunca percebera como ela era to linda. E como seu perfume era estonteante, um misto de torta de ma com algo estranhamente extico, que parecia combinar com o cheiro caseiro de po recm-assado. Por um momento, viu-se sem ao, e incapaz de falar, pela primeira vez na vida.
Isso era muito estranho j que, ao entrar na padaria, alguns minutos antes, sabia exatamente o que iria dizer. Na verdade, praticara as falas na noite anterior, at que as palavras flussem naturalmente, sem a menor nota de seduo. Tinha decidido evitar qualquer forma de seduo, a princpio. E agora no conseguia lembrar mais nada. S conseguia sentir o perfume de Alicia, fitar os olhos castanho-dourados, admirar a curva dos seios generosos e lutar contra o desejo de seduzi-la, mudando repentinamente todo o plano.
Espere um pouco. Pense, Monahan.
No era seduo o que planejara. No necessariamente. No naquele momento. Apenas queria namor-la por mais de um ms lunar. Dois, para ser exato, pois desejava ganhar a aposta que fizera com Finn, no ltimo sbado.
Ainda estava zangado consigo mesmo por ter deixado que isso acontecesse. J sabia que, ao dizer alguma coisa diante de Finn, teria que provar. Tinham competido desde garotos. E geralmente Finn acabava ganhando.
Mas no desta vez, prometeu Sean a si mesmo. Se Finn o desafiara a namorar Alicia por dois meses lunares, ele o faria. O que lhe daria tempo suficiente para seduzi-la. Mas por que queria seduzir Alicia? Afinal era Sean Monahan, o sonho de muitas garotas da regio, e eram poucos os rapazes que podiam dizer o mesmo. Bem, ele no a seduziria intencionalmente, mas se a oportunidade aparecesse...
Esses pensamentos no o ajudaram nem um pouco a lembrar-se do que devia dizer. Assim, fez o que sabia deixar as mulheres completamente fascinadas. Deu um sorriso sensual e ergueu levemente uma sobrancelha. Alicia, no entanto, parecia ser muito boa em disfarar sentimentos, pois no s no parecia fascinada, como nem parecia ter notado o sorriso.
	E o que posso fazer pelo senhor?  perguntou, em um tom profissional, que atingiu Sean como uma ducha gelada.
	Bem, para comear, pode me chamar de Sean.
Sem dar a menor indicao de que ouvira, ela repetiu.
	Em que posso ajud-lo, sr. Monahan?
Contendo um suspiro de impacincia, Sean tentou o sorriso sedutor, mais uma vez.
	Sei que a prxima semana ser de lua nova  comeou.
Ela no pareceu dar importncia, e continuou a fit-lo, com expresso curiosa. Mas quando ele no disse mais nada, ela . respondeu com certa impacincia.
	Tem razo. A lua nova  na quarta-feira, se no me falha a memria.
Ele assentiu, sorrindo.
	 mesmo na quarta-feira, e acho isso muito interessante. No acha?
Ela suspirou resignada e respondeu:
	Suponho que as pessoas possam achar interessante, se estudam astronomia, astrologia, ou alguma cincia ligada aos astros.
	Na verdade, no acho que Zoroastro tenha sido um cientista, mas sim um filsofo, e o mais interessante...
	De qualquer maneira  interrompeu Alicia, pousando o cotovelo no balco, e apoiando o queixo na mo.  Pensei que trabalhasse com programas de computador e jogos com monstros, cavernas e mulheres de seios enormes, geralmente criados por algum que reluta em deixar a infncia para trs.
A situao estava comeando a ficar interessante, pensou Sean, imitando o gesto dela e apoiando tambm o queixo na mo, com o brao sobre o balco. Os rostos ficaram to prximos que o perfume dela pareceu envolv-lo, deixando-o tonto. E para surpresa de Sean, o que mais desejava naquele momento era inclinar-se e... mordisc-la. Isso mesmo. Queria saber se o gosto dela era to bom quanto o cheiro.
Contendo um suspiro de puro prazer, ele murmurou, em um tom bem suave.
	Disse que no sabia qual Monahan eu era, mas parece que me conhece muito bem, Alicia.
Ela fitou-o, com uma expresso impenetrvel. Ento, de repente, falou depressa.
	Era uma xcara de caf que queria, no  mesmo?
Antes que pudesse responder, e pelo jeito Alicia no esperaria resposta, virou-se nos calcanhares e caminhou apressadamente para a cozinha, balanando a trana cada nas costas, e tambm os quadris sedutores. Em segundos, voltou com um grande copo de papel, to grande que ningum conseguiria pedir mais um, e empurrou-o para ele. Felizmente o copo tinha uma tampa, e o caf quente no derramou sobre o balco, nem sobre a pele delicada de Alicia.
Infelizmente, para Alicia, pelo menos, o caf no era a nica coisa que Sean queria dela.
	O que vai fazer quarta  noite?  perguntou, ignorando o caf.
A expresso dela mudou, e, de repente, parecia confusa e insegura.
	Vou trabalhar  respondeu, empurrando o caf para mais perto dele.
Sean continuou a ignorar o copo e insistiu:
	At que horas?
Por um momento Alicia ficou sem ao, apenas fitando-o, como se a houvesse convidado para uma viagem  lua. Ento, sacudiu a cabea de leve, empurrando ainda mais o copo para ele e, ao falar, no parecia muito segura.
	At... as nove.
Ele assentiu, continuando a ignorar o caf.
	Nove  repetiu ele.  Nessa hora a lua nova j estar visvel.
Ela olhou-o por um momento e, sem pensar, molhou os lbios secos com a ponta da lngua, em um gesto que Sean achou extremamente ertico.
	Na verdade, sr. Monahan, a lua nova no  visvel  disse ela.  O termo nova ...
Est bem, e o que isso importa?, pensou Sean.
	Isso  apenas um detalhe  assegurou ele.  Com certeza ser uma noite linda para...  ele calou-se, de propsito, deixando a ideia no ar. Por fim, completou, sorrindo:  Uma poro de coisas.  E em um tom suave, prosseguiu:  Que tal apreciarmos a noite? S ns dois?
Alicia fitou Sean, sem acreditar no que ouvia, e ainda menos no que sentia. Um estranho calor percorria-lhe o corpo, fazendo-a estremecer. Ele no podia estar convidando-a para sair. No podia acreditar que toda aquela conversa sobre a lua tinha o nico objetivo de tentar ser o prximo a namor-la. No podia ser!
Logo Sean Monahan, o primeiro dos homens que deveria evitar em Marigold! De todos os Monahans, e todos deviam ser evitados, Sean era a pior ameaa, porque alm de bonito e atraente, provocava nela sensaes estranhas. E entre os irmos era o nico de quem nunca se ouvira falar de um romance srio. Finn, por exemplo, ainda pensava em Violet De-marest, que no morava mais em Marigold, embora a m reputao que deixara para trs ainda persistisse. Sean, por sua vez, nunca fizera segredo de que adorava ser solteiro, e que pretendia continuar assim.
O que, pensou Alicia, podia ser exatamente o que ela precisava em um namorado. Algum que no quisesse um relacionamento duradouro, que pretendesse apenas passar momentos divertidos, por quatro semanas. E que, ao final delas, no lhe pedisse, de joelhos, para continuar namorando. Algum que nunca a pediria em casamento, para depois abandon-la no altar, humilhada pela terceira vez.
No, no, no, repetia uma vozinha dentro dela. No era com Sean que Alicia devia se preocupar. Precisava pensar nela mesma, pois embora soubesse que os homens se apaixonavam por ela, mesmo que depois a abandonassem, corria o risco de apaixonar-se por um deles. E s porque no acontecera em Marigold, no significava que estaria livre do risco. A regra de quatro semanas era uma proteo contra sentimentos mais profundos, mas sabia que o amor podia acontecer de repente, sem aviso. No era provvel que acontecesse, mas era possvel.
No que Sean fosse se apaixonar por ela, porque,  claro, no era capaz de uma emoo mais profunda. Se fosse capaz, por certo j teria se casado, uma vez que havia dzias de garotas disponveis e ansiosas, para t-lo como marido. As pessoas conversavam muito enquanto esperavam nas filas, especialmente para comprar po quente, e Alicia ouvia as fofocas locais.
Na verdade, sabia muito sobre Sean e os Monahans. Ouvira que a irm mais nova, Tess, professora da escola primria catlica, estava grvida de um homem que tinha sido forado a entrar para o programa de proteo as testemunhas. Alm disso, sabia que Miriam Thornbury, a bibliotecria, era apaixonada por Rory Monahan, embora ele nem tomasse conhecimento disso. Alis, Rory tomava conhecimento de poucas coisas, alm dos livros de histria.
Assim, graas s conversas ouvidas na padaria, Alicia sabia muito sobre a cidade e, acima de tudo, sabia que Sean Monahan era um solteiro convicto, que no pretendia mudar seu estado civil. Isso o tornava o namorado ideal para Alicia, mas ela tinha conscincia de que no queria ficar solteira e corria o risco de decepcionar-se mais uma vez.
Ela queria um casamento duradouro, um marido companheiro e apaixonado, por toda a vida. Algum com quem pudesse contar e a quem pudesse dar apoio. E sabia que no era fcil para uma garota da idade dela. Ainda assim, no queria passar o resto da vida sozinha.
Mas, infelizmente, era o que aconteceria, porque, por mais que desejasse encontrar o companheiro perfeito, no podia confiar em seus instintos quando se tratava do sexo masculino. Duas vezes pensara ter encontrado o prncipe encantado e por duas vezes havia sido enganada por promessas de amor eterno, e acabara abandonada no altar.
No era justo, pensou, acabar sempre envolvida com homens que no eram confiveis. Agora, para evit-los, nunca poderia se casar. Por mais que desejasse encontrar um parceiro, Alicia no queria mais sofrer decepes e humilhao. Preferia enfrentar a solido.
Durante algum tempo, pensara em procurar algum para dividir a casa. Uma garota com os mesmos sonhos e planos, com quem compartilhar urna amizade verdadeira. Mas desistira, sabendo que no era isso que queria. Queria romance. Romance para sempre, do tipo que comea com uma paixo arrasadora, e dura at o casal ficar velhinho, de culos bifocais, assistindo  tev de mos dadas.
Infelizmente, a vida lhe mostrara que aquilo no existia. E claro que algumas pessoas encontravam o amor, mas no ela. Duas vezes acreditara t-lo encontrado e duas vezes sofrera uma enorme decepo. No era provvel que voltasse a sentir a mesma emoo e, por certo, nunca com algum como Sean Monahan, to decidido a no ter qualquer compromisso.
	Sinto muito, mas j tenho um compromisso na quarta-feira, depois do trabalho  disse, tentando aparentar mais confiana do que sentia.
O sorriso de Sean diminuiu, e o brilho dos olhos pareceu menos intenso.
	Compromisso?  repetiu.  No entendo.
Alicia mordeu o lbio, tentando organizar os confusos pensamentos que a atormentavam, desde que Sean entrara na loja. Percebeu que ele no afastava os olhos de sua boca, e parou de morder o lbio. Ele ergueu o olhar, fitando-a direta-mente, com um olhar to intenso que faria uma geleira derreter.
	Sr. Monahan...
	Preciso ir...
Ambos falaram ao mesmo tempo e, em seguida, calaram-se. A tenso entre eles pareceu aumentar. Alicia teve o pressentimento de que o destino os colocara frente a frente, de um modo que no seria fcil escapar.
	Quanto lhe devo pelo caf?  perguntou Sean, procurando troco no bolso.
Ela ergueu a mo, em um gesto que poderia ser de rendio, e falou:
	 por conta da casa. Ainda no abri o caixa e... Considere como um brinde.
Ele assentiu, resmungando um agradecimento, e no deu qualquer indicao de que ia sair. Em vez disso, continuou olhando para Alicia, mais especificamente para a boca, como se estivesse fazendo planos para um futuro prximo. Ento, como se percebesse onde o olhar estava fixo, desviou-o, fitando o copo de caf intocado. Bem devagar, pegou-o, evitando fitar Alicia.
	Tenho de ir  disse depressa e saiu.
Muitos minutos depois que partira, Alicia continuou observando a porta por onde ele sara e percebeu que o cu ficava cada vez mais claro. Por algum motivo sentia-se confusa e sem flego, mas havia algo mais. Havia um sentimento confortvel e caloroso, que no sabia identificar, quando lembrava o sorriso de Sean Monahan, o olhar intenso, como era atraente e charmoso...
Alicia sentiu-se perdida, como algum condenado, que no tivesse como escapar.
Sean no foi muito longe. Logo parou a picape no acostamento e desligou o motor. No porque precisasse esperar o caf esfriar antes de tom-lo nem porque desejasse admirar o lindo nascer do sol.
Para sua surpresa, sentia-se to confuso e perturbado pelos sentimentos que o dominavam, que precisava de um tempo para se recompor.
Era muito estranho. No se lembrava de jamais ter ficado to perturbado em toda sua vida. E pior ainda. No conseguia identificar o que sentia.
Parecia perdido, como se as coisas escapassem a seu controle, tomando um rumo prprio.
O que acabara de acontecer na padaria de Alicia? Entrara ali sem pensar em nada mais do que convid-la para sair, e sara dali, como se um raio o houvesse atingido. Por alguns momentos, relembrou cada palavra que haviam dito, cada gesto, cada olhar. Mas no conseguia entender quando a conversa tinha comeado a ficar to perturbadora. A tenso comeara a aumentar e...
Ele suspirou, ao lembrar. Alicia Pulaski se recusara a sair com ele. Com ele! Sean Monahan! Era impossvel. Impensvel.
Inaceitvel.
Sean decidira que no aceitaria uma recusa e no apenas porque apostara com Finn, mas porque havia algo intenso, urgente, para no dizer quente e excitante, acontecendo entre ele e Alicia. E Sean no era homem de ignorar aquele sentimento, sem explorar todas as possibilidades, especialmente quando a garota era linda, desejvel, sensual, de dar gua na boca... E ainda mais quando os olhos da mulher diziam que percebia, tanto quanto ele, o que estava acontecendo.
Ento ela dissera que no podia sair com ele na quarta-feira? Muito bem. Voltaria l e a convidaria para sair na tera. Ento lembrou-se do que ele estaria fazendo na tera e todas as pessoas de Marigold, inclusive Alicia. Tera era quatro de julho, o dia da Independncia, e toda a cidade estaria no piquenique anual, em Gardencourt Park. Era quase uma obrigao para todos os habitantes.
Ligando novamente o motor, Sean sorriu. Tera era um timo dia para rever Alicia. O destino de ambos iria se cruzar, com certeza. E ele s podia agradecer a sua boa estrela por isso.

CAPITULO III

Sean encontrou Alicia na tera-feira, exatamente onde esperava. No meio do Gardencourt Park, na barraca da Padaria Alicia. O quatro de julho era o feriado nacional mais importante, e todos em Marigold o celebravam. Muitos dos comerciantes locais montavam barracas, ao lado da j feira de artesanato, que vendia objetos comemorativos, como bons  e chaveiros. Alicia oferecia bombas de creme, biscoitos de chocolate e macadmia, bolinhos de amora e outras guloseimas.
Ele ficou contente por estar vestindo uma nova cala jeans e uma camisa plo azul-marinho, porque Alicia tambm capri- ! chara, vestindo-se como uma personagem da histria americana, Betsy Ross. S que Sean duvidava de que Betsy ficasse to bem no vestido do perodo colonial que Alicia usava. A saia rodada, multicolorida, apertava-se na cintura delicada, enfatizando os quadris, enquanto o corpete justo realava os seios fartos.
E se no fosse o avental que cobria o vestido, por certo o piquenique teria uma atrao a mais para os homens presentes.
O pequeno chapu que usava quebrava um pouco a sensualidade, embora Sean achasse as rendinhas surpreendentemente provocantes. Alis, se Alicia aparecesse fantasiada como o cachorro de George Washington, ainda assim a acharia atraente.
Ela era simplesmente deliciosa, ou melhor, as coisas que vendia pareciam deliciosas. O que poderia fazer, seno sabore-la, ou melhor, sabore-las?
 Por favor, senhorita, quero um desses bolinhos de creme, que parecem deliciosos  pediu, orgulhoso por ter falado sem qualquer insinuao no tom de voz.
Alicia estava com a cabea abaixada quando ele se aproximou, mas ao ouvir a voz, ergueu-a depressa e corou. Sean considerou isso um bom sinal, e percebeu que os lbios cheios entreabriam-se, expressando surpresa.
	O qu?  perguntou.
Apontando o dedo para as guloseimas expostas na barraca sua frente, Sean repetiu.
	Quero um desses bolinhos, por favor  pediu, imaginando se o doce teria outro nome e estaria fazendo papel de bobo ao pedir um bolinho.
Alicia piscou duas vezes e, por fim, respondeu:
	Est bem. Um bolinho.
Sean suspirou aliviado, ao ver que ela tambm chamava a guloseima de bolinho, mas quase gemeu ao v-la inclinar-se para pegar o maior de todos. Ao faz-lo, o avental se abriu, revelando os seios firmes. Mas a viso logo desapareceu, pois Alicia virou-se e colocou o doce em um saco de papel.
Ao estender-lhe o pacote, Sean lembrou-se da ltima vez que a vira, havia trs manhs, quando lhe entregara o caf. O gesto parecia dizer Agora, desaparea.
	Aqui est disse ela, em um tom que Sean considerou animado demais.   um dlar e cinquenta.
Ele fitou-a diretamente, enquanto remexia nos bolsos da cala, tirando duas notas amassadas, que entregou a Alicia. E quando ela virou-se para pegar o troco, admirou-lhe a cintura fina, a curva dos quadris, imaginando que poderia explorar aquelas formas sem a menor pressa. Infelizmente, ela escolheu aquele momento para virar-se, e Sean mal pde disfarar.
Pela expresso de Alicia, pde perceber que no havia disfarado muito bem, j que ela estava com a testa franzida e os olhos muito srios. Mas tambm estava corada, o que o fez sorrir. Se corava diante dele, era porque ficava perturbada, e isso significava que estava provocando alguma reao nela, pensou Sean, satisfeito. Ao menos conseguia afet-la de algum modo. E no tinha atirado coisas em cima dele, no  verdade?
	Almoce comigo  disse ele, em um impulso. Havia planejado convid-la para fazerem alguma coisa juntos, mas tinha pensado em ir mais devagar, porque Alicia parecia o tipo de mulher que precisava de tempo para pensar
Imediatamente Sean desejou ter sido mais comedido, temendo que recusasse, mas cada vez que olhava para ela, as ideias que lhe surgiam na mente no eram nada apropriadas para um piquenique em famlia.
	Obrigada, sr. Monahan  disse, entregando-lhe o troco e parecendo um tanto sem flego.  Estou ocupada demais para almoar. Como pode ver, estou cuidando da barraca sozinha.
De repente, duas adolescentes, vestindo shrts caqui e camisetas com o logotipo da Padaria Alicia, apareceram prximas a Sean. Ambas tinham aventais idnticos ao de Alicia e sorriam.
	Obrigada pela pausa, Alicia  disse a mais loira das duas.  V agora, coma alguma coisa. Brittany e eu poderemos cuidar de tudo. Voc merece um descanso.
O rosto de Alicia ficou corado, e, sem querer, Sean sorriu.
	Parece que agora ter tempo, no ?  perguntou ele. 
	Bem... Na verdade, eu... Tenho que...
	Perfeito  antecipou-se Sean.  Conheo o lugar certo.
E antes que ela pudesse recusar, segurou-a pelo brao, fazendo-a passar pelo espao apertado entre as barracas. Alicia ainda gaguejou uma desculpa, mas Sean fingiu no ter notado e continuou falando, at que houvessem se afastado da barraca. Ela no parecia convencida, e ento ele passou o brao dela pelo seu, puxando-a para mais perto. Alicia no teve alternativa seno acompanh-lo.
E se conseguisse que ela o acompanhasse por dois meses lunares, pensou Sean, Finn perderia a aposta.
S que depois de arrasta-la  barraca do Rotary, onde comprou o almoo,  barraca das escoteiras, onde comprou limonadas, e a caminho da fonte, no centro do parque, considerada um local romntico, Alicia parecia menos disposta a segui-lo. Assim que ele colocou o almoo sobre um banco,  sombra de uma grande rvore e  frente da fonte, soltou-se, parecendo indignada.
	Sr. Monahan...  comeou, sem flego.
	Sean  corrigiu ele depressa, segurando-a delicadamente pelo pulso.
	Sr. Monahan  repetiu ela, como se no houvesse ouvido.
Soltando o brao, cerrou os punhos, em um gesto que Sean considerou adorvel, e franziu a testa, parecendo muito zangada.
	No posso aceitar seu convite. Tenho outras coisas para fazer, em vez de almoar.
	Sean  corrigiu ele.  Sou Sean. Se continuar chamando-me de sr. Monahan, eu e meus quatro irmos responderemos ao mesmo tempo.
Essa possibilidade no pareceu agrad-la, e Alicia murmurou algo ininteligvel, sentindo-se pouco  vontade.
Sean achou essa reao muito estranha. Havia muitas mulheres em Marigold e em toda a regio, que adorariam a oportunidade de ver os irmos Monahans respondendo a um chamado.
Alicia Pulaski, no entanto, parecia achar essa possibilidade algo terrvel.
	Sean  repetiu pela terceira vez, frustrado por no ouvi-la dizer seu nome.  Por favor, chame-me de Sean.
Ele no sabia por que, mas queria muito ouvi-la dizer seu nome. Talvez porque tivesse uma voz rouca, sensual, como as que se ouve ao assistir a um filme, no cinema s escuras, com Demi Moore ou Debra Winger na tela. A voz que faz um homem pensar em momentos sensuais, carregados de paixo.
Quando Alicia abriu a boca para falar, Sean preparou-se para ouvir o que tanto esperava. Mas, em vez de dizer o nome dele, ela disse:
	Preciso voltar  barraca.
	O qu? perguntou surpreso.  Suas empregadas pareciam mais do que capazes de cuidar de tudo. Alis, o movimento deve ter diminudo agora, j que  hora do almoo. E voc ainda no comeu nada.
	Belisquei a manh toda  garantiu Alicia.   um dos problemas de meu negcio. Com todas aquelas guloseimas, nem preciso de almoo.
Ele sorriu do modo mais sedutor que podia e semicerrou os olhos azuis, de um modo que, haviam dito-lhe mais de uma vez, era irresistivelmente sedutor. Colocando as mos nos quadris, contraiu os bceps e jogou a cabea levemente para trs, fingindo indiferena. Na verdade, a cabea para trs no fazia parte do jogo, mas o gesto fora necessrio porque os cabelos caam-lhe sobre a testa, atrapalhando a viso.
Beliscar no  o mesmo que almoar  provocou.  Uma mordida aqui, outra ali, no  o suficiente para matar a fome, no  mesmo?  insistiu, com duplo sentido.
Ele deu um passo para a frente, ficando a poucos centmetros de Alicia, mas no a tocou, continuando apenas a fit-la diretamente. Os olhos dela pareciam em chamas, notou Sean, percebendo que ela sustentava o olhar com a mesma intensidade.
	 claro que pequenas mordidas podem ser mais... bem, despertam mais fome...  continuou, lentamente, sentindo um estranho calor percorrer-lhe o corpo.  H variedade. Pode-se experimentar algo diferente, algo que no se saboreia todos os dias, no ?  continuou em um tom ainda mais insinuante.
 Beliscar algo diferente  muito tentador, Alicia, porque sem pre nos parece um tanto proibido, no  mesmo?
Ela no fugiu quela proximidade mas manteve-se calada.
	Mas um almoo...  prosseguiu, segurando-a pelo pulso e puxando-a para mais perto.  ... algo que satisfaz muito mais. Requer ateno, cuidado com os detalhes, tempo para saborear cada bocado...
Puxando-a delicadamente, at que os corpos se tocassem, esperou que ela protestasse. Em vez disso, Alicia colocou a mo sobre o peito dele, abrindo os dedos sobre o corao de Sean, que batia forte. E ele pde ver, pela veia que pulsava intensamente no pescoo delicado, que o corao dela tambm estava acelerado.
	Pode-se almoar sem pressa  disse ele, quase em um sussurro.   muito mais satisfatrio. H muitas maneiras de faz-lo, tanto para apreciar...  Ele inclinou a cabea, encostando-a de leve na tmpora de Alicia, que suspirou, ao sentir o contato.  E preciso ir mais devagar  continuou, a boca quase tocando a orelha dela.  Saborear e apreciar tudo que h no prato. Se feito da maneira correta, almoar pode dar muito mais... prazer do que... beliscar.
Por mais que desejasse beijar a curva elegante do pescoo delicado, Sean conseguiu controlar-se. Lentamente, colocou uma das mos sobre o quadril de Alicia, preparado para a reao dela. Mais uma vez, ela no reagiu. E quando se afastou para observar o rosto dela, viu que o olhava, preocupada, embora ele j houvesse terminado o discurso sobre satisfazer a fome...
O mais estranho era que a ateno dela parecia focada na boca de Sean. Ao perceber, ele estremeceu, como se houvesse levado uma descarga eltrica, vendo que as pupilas de Alicia estavam dilatadas, o rosto corado e os lbios entreabertos, como se fosse difcil respirar.
No era s ela, admitiu Sean, sentindo-se meio tonto, como se faltasse oxignio a seu crebro. Mas que homem, reagiria diferente, ao ver Alicia fitando-o daquele modo? De repente, sabia que apenas o almoo no satisfaria sua fome. Alis, no havia comida no planeta que pudesse satisfazer a fome que sentia...
 claro que comida era a ltima coisa que estava na mente dele, porque Alicia Pulaski continuava a fit-lo, como se quisesse devor-lo ali mesmo. E no havia nada que Sean desejasse mais naquele momento que ser devorado. Completamente.
No!
Estava acontecendo de novo. Aquela estranha eletricidade que parecera envolv-los naquela manh, na padaria, surgira de novo. E o que deveria ser uma conquista bem planejada, estava escapando ao controle de Sean.
 Bem, acho que...  comeou ela baixinho.  Na verdade, seria bom almoar...
Sean achou que ela ficava linda quando parecia confusa, mas no disse nada ao segurar com firmeza o pulso delicado, puxando-a para o banco, onde colocara o almoo de modo a deixar pouco espao, o que os obrigaria a sentarem-se bem perto.
Alicia percebeu a estratgia e, antes de se sentar, colocou o almoo e as limonadas no centro do banco, sentando-se em um dos lados e convidando-o a sentar-se do outro.
Droga.
Disfarando a impacincia, Sean sentou-se e pegou o almoo. A lua nova s surgiria no dia seguinte, e teria mais um dia para convencer Alicia a lhe dar uma chance.
Um dia e uma noite, lembrou Sean.
Alicia no conseguia entender como se deixava envolver facilmente em situaes que devia evitar. Mas Sean Monahan no lhe dera chance, no  mesmo? No s a seduzira durante a tarde, bem em frente  fonte, com toda aquela conversa sobre beliscar e almoar, como a seguira pelo restante do dia, parecendo um cachorrinho ansioso por ser aceito.
Ficara o tempo todo ao lado da barraca, enquanto Alicia trabalhava, sorrindo de modo sedutor, fitando-a com os lindos olhos azuis, agindo como um prncipe de contos de fada. Alicia no conseguira resistir. Ele era to bonito, to atraente, to...
Alicia suspirou. Antes que pudesse perceber o que acontecia, estava deitada ao lado dele, em uma colcha florida, sob o cu estrelado, o corpo trmulo de antecipao, aguardando a exploso dos fogos de artifcio que ocorreria em breve.
Felizmente, pensou Alicia, os fogos eram reais, e no do tipo que explode com a paixo, e logo se ouviram os primeiros rojes da tradicional queima de quatro de julho.
Pelo menos, esperava que os nicos fogos daquela noite fossem os da comemorao. Sean era to bonito, atraente...
Pare, Alicia, disse a si mesma. No haveriam fogos com ele, nem naquela noite, nem em qualquer outra. Disso tinha certeza. Desde que mudara de Chicago para Marigold, no tinha havido fogos de artifcio, com ningum. Tinha aprendido que, depois dos fogos, restavam apenas as cinzas queimadas. Alis, nos ltimos dois anos, nenhum homem lhe despertara qualquer interesse. E faria de tudo para continuar assim. Sean Monahan podia guardar seu charme para outra ocasio.
	Quer um?  perguntou ele, baixinho, a voz soando to perto que Alicia estremeceu.
Sentando-se depressa, virou-se e viu que Sean tambm se sentava, pegando duas varetas de fogos coloridos, com uma jovem que os vendia no meio da multido.
	Pegue  disse ele, mas Alicia sacudiu a cabea, recusando.
- Obrigada. No gosto de fogos.
Ele ergueu uma sobrancelha, como se duvidasse ou estivesse curioso, pensou Alicia.
	No gosta de fogos?  repetiu,
	No  disse ela firme.  Nunca.
	Nunca?  repetiu ele, sem esconder a descrena.
	Nunca.
	Est falando srio?  perguntou, parecendo chocado com a resposta.  Quer dizer que nunca... experimentou um deles?
Alicia respondeu, um tanto ansiosa.
	No  bem isso. J experimentei, mas... Uma ou duas vezes, Mas ultimamente, no...  disse relutante.  No nos ltimos tempos.
Ele fitou-a atentamente.
	H quanto tempo?
Ela deu de ombros, como se tentasse lembrar. Fora duas semanas antes do casamento marcado com Stanley, quando tinham ido a Nova Orleans, para o feriado de Mordi Gras, e tinha havido fogos de artifcio. Dos dois tipos.
	Cerca de dois anos e meio.
Dessa vez Sean no escondeu a surpresa.
	Est dizendo que h mais de dois anos no se diverte com fogos?
Ela assentiu, imaginando se estariam falando da mesma coisa. Alicia no estava em Marigold no quatro de julho do ano anterior, j que fora a um congresso de panificao em Indianpolis. E em seu primeiro ano na cidade, estivera doente no feriado. Fazia mesmo dois anos e meio que no se divertia com fogos.
	Dois anos e meio, com certeza  confirmou baixinho.
	Est falando srio?
	E claro!  confirmou, comeando a sentir-se indignada, embora no soubesse por qu.
Ele observou-a em silncio por alguns momentos.
	No acendeu nenhum mesmo? Nem uma bombinha?
	No.
	Nem viu aqueles que soltam fascas coloridas ao subir?
	No.
Ele sacudiu a cabea lentamente, como se estivesse desapontado.
	Eu tinha planejado acender uma poro esta noite...
Alicia ergueu o queixo, em um desafio.
	Ter de faz-lo sozinho.
	E qual  a graa?  Ele inclinou-se, a expresso do rosto encoberta pela escurido da noite, e falou, baixinho, em um tom incrivelmente sedutor.   muito melhor faz-lo a dois.
Alicia engoliu em seco, tentando evitar que o cheiro dele a perturbasse. Era um misto de luar e vero, alm de algo inegavelmente masculino.
	Sean...  disse deliberadamente devagar.
Ele apoiou-se em um cotovelo e estendeu as pernas  frente, ao lado de Alicia. Embora os corpos no se tocassem, estavam perto demais, e ela podia sentir o calor do corpo forte.
	Gosto quando diz meu nome  disse ele baixinho.  Gosto muito.
Um estranho calor percorreu o corpo de Alicia, como se, dentro dela, houvessem fogos prontos para explodir.
	Por que est fazendo isto?  perguntou em um impulso.
	Fazendo o qu?  indagou Sean, fingindo inocncia.
	Por que me seguiu o dia todo, falando o tempo todo frases de duplo sentido, insinuando...
	Eu fiz isso?
	Sabe que sim.
Por um longo momento, fitou-a, intensamente, antes de responder.
	Talvez eu queira conhec-la melhor.
	Por qu?
Ele deu de ombros, mas no havia nada de descuidado no gesto.
	Bem, deixe-me pensar um pouco  pediu, fingindo concentrar-se. Mas era evidente que estava brincando, pois continuou imediatamente.  Pode ser porque voc  uma mulher incrivelmente bonita, atraente e interessante. Embora seja apenas um palpite.
Embora no acreditasse nele, Alicia corou diante dessas palavras.
	Ento me acha interessante?
	Com certeza.
	Muitas pessoas em Marigold pensam que sou esquisita.
Ele sorriu, expressando sinceridade.
	Prefiro consider-la liberada, sem barreiras.
O sentimento de felicidade que Alicia experimentara desapareceu de imediato. Liberada, em outras palavras, era o mesmo que esquisita.
	Entendo  disse desanimada, e no sabia o que fizera ou dissera, para que a considerassem assim. Talvez o nome, Alicia, fosse incomum. Mas no o escolhera, no  mesmo? Tinham sido seus pais.
Tambm gostava de vestidos amplos de algodo, ou seda, e de sandlias de tiras. E gostava dos cabelos bem compridos e soltos, naturais. Plantava ervas medicinais no quintal, fazia ioga e meditava todos os dias. Mas nada disso a tornava esquisita. Muitas pessoas faziam o mesmo. Seguiam orientao dos astrlogos, eram vegetarianos, gostavam de ouvir msicas com o canto das baleias azuis. Alicia fazia tudo isso, e, com certeza, no era motivo para que a considerassem esquisita.
No em seu modo de pensar, mas para os moradores de Marigold...
- No h problema algum em ser uma mulher liberada, Alicia - disse Sean baixinho.  Se quer saber, invejo sua habilidade em no se importar com o que dizem ou pensam, sobre voc.
Ela ergueu o queixo, mas Sean no conseguiu fit-la nos olhos.
 Quem disse que no me importo?  perguntou pausadamente.
Ao fit-lo, Alicia percebeu que abrira a boca para responder, mas as palavras pareciam no sair. Antes que pudesse faz-lo, os fogos da festa comearam a explodir, iluminando a noite com cores brilhantes.  volta deles, todos soltavam exclamaes e gritos, e qualquer coisa que ele houvesse dito teria passado despercebida com o barulho. Alicia viu-se envolvida na beleza do espetculo, como os outros, assim como Sean. Ele deixou de fit-la e ergueu o olhar para o cu iluminado. S ento ela pde relaxar.
Mas quando o ltimo rojo explodiu, a ansiedade voltou. Todos  volta deles recolhiam seus pertences e iam para casa. Alicia percebeu que no sabia como agir.
Tinha fechado a barraca havia algum tempo, e Sean e as empregadas tinham ajudado a colocar tudo no velho micronibus de Alicia. Muitas pessoas tm micronibus, dissera, ao perceber como Sean ficara surpreso ao v-lo. E muitas pessoas pintavam neles margaridas, e o smbolo da paz.
Naquele momento, no tinha mais nada a fazer, alm de recolher a colcha, o resto do po de parmeso e alecrim que tinham dividido, e carreg-los para o micronibus. Ento diria boa noite, ou melhor, adeus, a Sean Monahan e rezaria para nunca mais encontr-lo a ss.
Comeou a fazer isso, mas Sean a impediu, pegando a colcha e dobrando-a muitas vezes, sem deixar de fit-la.
	Sean, no precisa...
	Vou lev-la at seu... aquela coisa que dirige  esclareceu ele, com um sorriso sedutor. E quando ela ia recusar acrescentou:  Precisa tomar cuidado.
Ela no pde deixar de rir.
	No pode estar falando srio.
Ele deu de ombros, e sorriu novamente.
	Est bem. No  perigoso andar nas ruas ou parques de Marigold.  Mais uma vez, ele sorriu, e Alicia estremeceu.  Mas  muito melhor andar acompanhado. Posso lhe fazer companhia  ofereceu, parecendo um garotinho ansioso.
Ah, como podia, pensou Alicia. Podia faz-lo por muito, muito tempo...
	De verdade, Sean, no  preciso...
	O que vai fazer amanh  noite?  perguntou ele, interrompendo-a.
A mudana de assunto foi to rpida, que Alicia foi pega de surpresa.	
	Eu j di-disse  gaguejou.  Vou trabalhar.	
	S at as nove  lembrou ele.
	Direto at as nove  corrigiu ela.	
Mas ele no aceitaria um no como resposta, e insistiu.
	O que vai fazer depois das nove?
	Vou para casa  respondeu depressa.
O sorriso dele alargou-se.	
	Posso ir at l.	
E agora?	
	No acho boa ideia, Sean.	
	Ento poderemos nos encontrar em outro lugar. Onde quiser.         
Alicia suspirou. Era evidente que queria sair com ela, e nada que dissesse iria convenc-lo a desistir. Pelo jeito, no a deixaria em paz, at dizer sim. Era claro que teria de... sair com ele.
E a ideia fazia com que se sentisse quente e, ao mesmo tempo, um tanto trmula.
 Est bem  disse, por fim, sabendo que estava cometendo um erro, mas incapaz de fazer algo, alm de concordar.  Poderemos nos encontrar em outro lugar. Diga onde prefere.

CAPITULO IV

Se tivesse imaginado que Sean Monahan fosse sugerir o Skyway Drive-in para o encontro, Alicia jamais teria aceitado. Mas, de certo modo, ele tinha razo. Como ela trabalharia at as nove, e teria que se arrumar para sair, no chegariam a nenhum lugar antes das dez. E em Ma-rigold, a maioria dos lugares estava fechada nessa hora. Restavam trs opes.
Poderiam ir  casa de Alicia.
Poderiam ir  casa de Sean.
Ou poderiam ir ao Skyway.
Alicia no hesitara em escolher o melhor lugar. Ou, pelo menos, o que achava mais seguro. Ainda mais que o programa daquela noite inclua duas comdias antigas, do tipo pastelo, o que no contribua nem um pouco para inspirar momentos de paixo. Muito bem. Alicia estava confiante.
Ou melhor, estivera confiante at ver a Cherokee de Sean, com o enorme banco traseiro totalmente desocupado, estacionar em um lugar deserto, semi-isolado, bem no fundo do drive-in. Embora houvesse prendido os alto-falantes  janela, Sean colocara o volume bem baixinho. Abrira os demais vidros do carro, deixando entrar a brisa fresca, que despenteava alguns fios de cabelo de Alicia, que haviam escapado da trana.
Ela imaginava que ainda devia cheirar a po fresco, mas entendia que podia haver cheiros piores depois de um dia de trabalho. Pelo menos tivera tempo de trocar de roupa, e escolhera um vestido de algodo branco, que mais parecia uma combinao vitoriana. Talvez estivesse elegante demais, mas no tinha ideia do que usar para ir a um drive-in, j que nunca estivera em um deles antes. Sean, por sua vez, parecia descontrado com uma cala jeans que combinava com a camisa, dois tons de azul mais escuro do que os olhos dele. No podia ver os olhos dele no escuro, mas sabia exatamente a cor.
E como sabia. Vrias vezes, nas ltimas vinte e quatro horas, aqueles olhos voltavam-lhe  mente e, at durante o sono, a lembrana do olhar dele a despertara no meio de um sonho perturbador, ansiosa e ofegante.
Sentados no escuro, sob a noite estrelada, o clima entre eles era de puro romance, e Alicia no sabia como impedir.  claro que podia abrir a porta e sair correndo. Mas seria ridculo e nem um pouco educado.
Por que permitira que fosse busc-la em casa?
Ao virar-se para Sean, viu que ele se inclinara confortavelmente no banco, e a observava, muito srio. E de repente, sair correndo dali lhe pareceu a melhor opo.
	Sinto muito pelos filmes  disse, sorrindo.  Podia jurar que a programao dessa noite seria melhor.
Alicia no sabia o que Sean consideraria um programa melhor. Mas imaginou que um filme ertico, com cenas trridas seria bem do gosto dele. S que ali era Marigold, Indiana, e Alicia tinha certeza de que esse tipo de filme nunca seria exibido ali.
	Para mim est timo  disse Alicia, esperando no ser castigada pela mentira.  Gosto de comdias antigas, so muito divertidas.
Ele pareceu surpreso com a resposta, mas Alicia decidiu no dizer mais nada. Quem sabe isso o mantivesse longe, sentado do outro lado do banco.
	, algumas so divertidas  comentou Sean, dando de ombros.
Alicia sorriu.
	So mesmo.
Depois disso, o silncio instalou-se entre eles, e tambm uma estranha tenso, que parecia aumentar a cada momento, at que Sean ofereceu-se para ir buscar pipocas. Vendo-o afastar-se, Alicia se perguntou o que os dois estavam fazendo ali. Ela no conseguia entender por que Sean Monahan a convidara. Voltando quela manh, na padaria, achava que o nico motivo de ter aparecido, era convid-la para sair, embora dissesse que queria um caf.
Tinha insistido tanto em convid-la, como se isso fosse de extrema importncia, que no fazia sentido. Tinha morado em Marigold por mais de dois anos, sem contato direto com nenhum dos Monahans, e de repente, Sean, o mais sedutor de todos, aparecia insistindo para que sasse com ele.
E,  claro, no conseguira resistir. Ele era muito bonito, atraente e sensual. Agora passaria um ms lunar com ele. Mas como conseguiria?
Ento, um pensamento lhe ocorreu. Ele sabia sobre a regra de Alicia, no sabia? Devia saber. Afinal, todos em Marigold sabiam. Ser? Sean estaria pensando que o namoro poderia durar mais de quatro semanas? Seria melhor tocar no assunto quando ele voltasse com as pipocas, pois tudo ficaria esclarecido entre eles. No queria qualquer dvida, pois no pretendia namor-lo seriamente. De jeito nenhum.
Alicia sabia que essa regra era um dos motivos pelo qual o pessoal de Marigold a achava estranha. Mas no podia evitar. O que mais poderia fazer? Desde que se mudara para l, tinha recebido muitos convites dos homens solteiros da cidade. Nao que se considerasse a garota mais linda do mundo, mas sabia que era bonita e atraente e que despertava o interesse dos rapazes, j que era nova na cidade.
Alicia j aprendera que no sabia julgar os homens, e seus dois relacionamentos desastrosos haviam lhe mostrado isso. No conseguia separar os de bom carter dos que no valiam a pena, porque acabava envolvendo-se, apaixonando-se e confundindo tudo. Ela tivera duas chances e, por duas vezes, fora abandonada no altar. Assim, era melhor no se envolver com homem algum. Nunca mais. Logo que chegara a Marigold, tinha imaginado um plano que a impediria de ter novas experincias desastrosas.
Alicia adotara uma regra de no namorar ningum por mais de um ms, impedindo assim que o relacionamento se aprofundasse. Imaginara que em um ms o casal comeava a se conhecer. Nos meses seguintes, passava a assumir um compromisso, at que a relao ficasse mais sria. E Alicia s queria namorar, ter uma companhia masculina, sem envolver-se emocionalmente.
Mas alguns meses eram mais longos do que outros, reconheceu. E o namorado de fevereiro, um ms mais curto, podia ter-se sentido lesado por ter tido menos tempo do que o de agosto, por exemplo. Assim, optara pelo ms lunar, que tinha sempre quatro semanas, e que seria mais justo para todos. O plano era perfeito. Ningum poderia reclamar.
E se havia algum homem que no gostava da regra... Bem, acabava superando. Alicia achava que, agindo assim, nunca havia partido um corao e, melhor ainda, mantivera o dela a salvo.
Por enquanto.
O pensamento surgiu-lhe na mente, e no era nada agradvel.
Sean Monahan no era diferente dos outros, disse a si mesma. S porque era bonito? E charmoso? E livre? J namorara homens como ele. Bem... quase como ele. E no tivera o corao partido. No tinha namorado no ltimo ms e estava cansada de solido. O amor no acontecia to depressa. Nem chegara perto de apaixonar-se por qualquer outro homem, desde que estabelecera a regra. Sean no era diferente. No era mesmo, repetiu. No estava arriscando nada ao namor-lo, afinal, no tinha como se apaixonar por Sean em quatro semanas.
Era o que esperava.
O filme j havia comeado quando ele voltou, mas Sean no parecia nem um pouco aborrecido por ter perdido o comeo. E quando ele colocou o saco enorme de pipocas entre eles, sentiu um misto de alvio e irritao. Por um lado, estava aliviada por ter uma barreira, embora ineficiente, entre eles. Por outro, estava irritada por ter uma barreira, embora ineficiente, entre eles.
Pare com isso. Quanto mais devagar as coisas caminhassem, melhor seria. Quanto mais barreiras houvesse, mais segura estaria de que o relacionamento no iria longe demais.
Espere. No havia relacionamento algum. S diverso, boa companhia por quatro semanas, e nada mais. Como sempre. Era a regra dela. Nada mais.
Infelizmente, quando Sean inclinou-se e pegou uma garrafa de vinho tinto sob o banco de trs, a certeza de Alicia diminuiu. A relao ficava mais romntica. A relao no, corrigiu. A situao. A palavra era mais adequada.
	Hum mil novecentos e oitenta e trs  disse ele, mostrando o rtulo.  Uma safra bem especial.
Alicia no entendia nada de vinhos, mas olhou o rtulo, com uma expresso que esperava ser de aprovao e reconhecimento.
Quando ele sorriu, achou que tinha sido convincente. Sean virou-se novamente, pegando atrs do banco dois copos e um saca-rolhas. Logo Alicia viu-se segurando o copo de vinho tinto. Ao tomar um gole, percebeu o aroma suave, e suspirou de prazer, ao sentir o corpo aquecer-se.
Ao virar-se para Sean, viu que ele sorria, daquele modo sedutor que j vira antes. E quando sorria daquele jeito... Algo parecia derreter dentro dela, causando-lhe uma sensao envolvente e um tanto perturbadora. E em vez de ouvir sinais de alarme ao v-lo sorrir daquele jeito, sentia-se feliz, como nunca acontecera antes.
	Ento... gostou?  perguntou ele, em um tom que mais parecia uma carcia.
	Adorei.  maravilhoso  respondeu, suspeitando que ele sabia que no falava s do vinho.
Ele hesitou apenas um momento, antes de dizer, baixinho.
	O vinho  saboroso. Voc  maravilhosa, Alicia.
E agora? A sensao que a envolvia era mais do que felicidade, era algo... excitante...
	 verdade  continuou Sean, colocando o brao no encosto do banco, e inclinando-se para ela.  Maravilhosa.
Alicia engoliu com dificuldade, ao ouvir a voz sedutora, e no conseguiu desviar o olhar do rosto dele. Os traos incrivelmente bonitos, meio escondidos pelas sombras, meio banhados pela luz da tela, pareciam atra-la de um modo que no conseguia resistir. Por um instante, imaginou que Sean iria beij-la. E em seguida, com uma sensao deliciosa, percebeu que queria muito que o fizesse.
Naquele momento, Alicia imaginou como a boca de Sean deveria ser suave, quente, como os lbios a tocariam, uma, duas vezes, provocando. Ento, ele a acariciaria no rosto, e colocaria a outra mo atrs da nuca, puxando-a para mais perto. Perto o bastante para aprofundar o beijo, para toc-la at...
Em um ltimo esforo para manter a sanidade, Alicia tentou prestar ateno no filme.
Veja!  gritou, com um entusiasmo exagerado.  Adoro essa parte!  to engraada. Aumente o volume.  E pegando um punhado de pipocas, evitou olhar para Sean.   incrvel como os efeitos especiais so bons, se pensarmos na poca em que foi feito.
Sean continuava em silncio, e Alicia percebeu que no aumentara o volume, como havia pedido. Apenas tirara o brao de detrs dela, e voltara ao lugar dele. Depois de fit-la por mais um momento, tambm pegou um punhado de pipocas e acomodou-se melhor no banco, prestando ateno no filme.
Por dez minutos.
De repente, Sean virou-se para ela, e fitou-a novamente.
	Ento, Alicia, fale de voc.
Ela deu de ombros, como se a pergunta no fosse importante, e retrucou.
	O que poderia dizer?
	Voc  quem sabe.
Ela olhou-o e, desta vez, acostumada com a escurido, pode v-lo melhor. Ele era bonito demais. Devia estar maluca por ter concordado em sair com ele. Por que concordara? No que estava pensando ao aceitar o convite? Mas sabia muito bem. No pensara em nada, apenas se sentira irresistivelmente atrada...
	Eu no imagino o que gostaria de saber  disse, podendo, afinal, ser honesta.
	Tudo  respondeu ele.  Quero saber cada detalhe sobre voc.
Muito bem. Se ele queria mesmo saber, iria contar-lhe tudo. 
	Ento vou lhe contar tudo. Nasci em uma pequena cabana na floresta.
	Muito engraado  cortou Sean, um tanto secamente.
 Vamos, Alicia. Quero saber a verdade.
Ela piscou, confusa com essa reao.
	 verdade. Nasci mesmo em uma cabana, na floresta.
Ele fitou-a, ainda em dvida.
	Meus pais... Os nomes deles eram Sunflower e Cumulus Pulaski...
	Sunflower e Cumulus?  interrompeu Sean.   
	Bem, voc disse que queria a verdade.
	Mas esses nomes so...
	Bem, originalmente eles eram Susan Miller e Chris Pulaski, mas quando fizeram seus votos de amor eterno, durante o Vero do Amor em Haight-Ashbury, decidiram mudar legalmente seus nomes para Sunflower e Cumulus.  claro que nunca se casaram legalmente. Afinal, o que importa um pedao de papel, quando o amor  verdadeiro?
Sean ficou em silncio, fitando-a, e por fim falou baixinho:
	 verdade.
	Eles mesmos construram a cabana. Quando estiveram no festival de Woodstock, adoraram  Nova Inglaterra, e decidiram viver ali. Foram de carona at o Maine e- compraram um pedao de terra. Meu pai trabalhava como carpinteiro, e construiu uma cabana com a madeira de rvores que ele mesmo cortou. Mame plantou uma horta, com canteiros de legumes  e ervas medicinais, tudo cultivado organicamente. Criaram cinco filhos naquela cabana. Minhas irms, Lavender e Aura, e meus irmos, Storm e Chip.
	Chip?  repetiu Sean.
Alicia assentiu.
	Adoro aquela cabana. Meus pais ainda moram l.
	E seus irmos e irms?
	Esto espalhados por a  respondeu Alicia, incapaz de esconder a tristeza.  Lavender acaba de terminar a Academia da Fora Area, Chip  corretor da bolsa, Aura  engenheira aeronutica, e Storm desenha vestidos de noite para Givenchy.
Sean ainda a observava com expresso de dvida. : Seu pai conseguiu manter sete pessoas apenas trabalhando como carpinteiro?
	Bem, comamos o que mame plantava, sem agrotxicos, e tnhamos vacas e galinhas, tambm  explicou Alicia.  E havia o fundo que mame herdou.
Sean ergueu uma sobrancelha, sem esconder a surpresa.
	Herdou?
	Sim. Meu av, o pai dela,  o fundador da GTG, Global Technic Computadores. Talvez tenha ouvido falar.
Sean apertou os olhos, tentando digerir essa informao sobre Alicia Pulaski. Ela era neta de um dos homens mais ricos da Amrica!
	Eu, e cerca de 99% da populao do planeta  disse, por fim.  Ento voc  herdeira de uma fortuna?
Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa, como se fosse a primeira vez que pensava no assunto.
	, acho que sou. E da?
E da?, pensou Sean.
	E voc?  continuou Alicia, como se pouco importasse o fato de a famlia dela ter milhes de dlares.  O que tem para contar? Tambm vem de uma famlia grande, no ? Temos algo em comum.  Ela colocou muitas pipocas na boca, e mastigou-as satisfeita, esperando a resposta de Sean.
 Bem, meu av era um construtor, no um pioneiro da tecnologia. Os Monahans so genuinamente classe mdia.
	E da?  retrucou Alicia.  Pode haver algo melhor do que ganhar a vida honestamente?
De algum modo ele sabia que estava sendo sincera. Seno, por que trabalharia tanto? Muitas pessoas na situao dela, teriam preferido viver do dinheiro da famlia, mas os Pulaskis, ao que parecia, preferiam trabalhar para sustentar-se. Sean agradeceu silenciosamente aos pais de Alicia por terem criado os filhos assim. De outro modo, Alicia estaria realmente fora do alcance dele. Afinal, que chance poderia ter com a herdeira de uma grande fortuna? Pelo menos, com a dona de uma padaria, podia haver esperana.
Alis, por que se importava em ter, ou no, uma chance com ela? Tudo que queria era namor-la por dois meses, nada mais. Bem, talvez, no ntimo, tivesse esperanas de ir um pouco alm. E se Alicia tambm quisesse, quem sabe o namoro pudesse ficar um pouco mais... fsico. Sean no queria mais do que isso, apesar de sentir-se muito bem ao lado dela. Alis, bem demais, reconheceu Sean, imaginando como podia achar maravilhoso estar sentado no escuro, vendo uma velha comdia sem graa, com Alicia a seu lado.
Ele a conhecia havia pouco tempo, mas sentia-se  vontade junto dela. Era fcil conversar com Alicia, ela parecia sincera e no se preocupava em fazer jogos como as outras mulheres, que acabavam por confundi-lo. E tambm parecia no ter qualquer expectativa quanto a ele. S no sabia se achava isso bom, ou ruim.
H algo que gostaria de deixar bem claro  disse Alicia, de repente muito sria.
Muito bem, agora ia falar das expectativas. Tinha se enganado, mas, por mais estranho que fosse, estava ansioso por ouvir.
	O que ?
Ela ficou em silncio, como se estivesse escolhendo as palavras. Finalmente, como se o assunto fosse realmente muito srio, comeou:
	Voc sabe sobre a regra, no ?
Ele sorriu. Ento aquele era o assunto importante.
	Do ms lunar?
Ela assentiu e suspirou, evidentemente aliviada. Mas ao falar, parecia um tanto ansiosa.
	Sim. Sabe que nunca namoro um homem mais do que quatro semanas, no ? No quero parecer presunosa.
 claro que no precisamos namorar todo esse tempo, mas no seria correto se voc no soubesse. S quis deixar claro que...
 Acho que vamos namorar todo esse tempo, Alicia  interrompeu Sean, em um tom seguro.
Essa afirmao surpreendeu-a de tal modo, que se calou por um momento.
	Na verdade...  Ele no precisava dizer que pretendia namor-la por mais tempo. S criaria problemas. Era melhor namorar um dia de cada vez. Ou uma semana de cada vez. Ou um ms lunar de cada vez.
	O qu?  perguntou ela.
	Nada. Nada importante.  Sean apenas sacudiu a cabea, achando melhor manter seus planos em segredo.
Ele hesitou por um momento, imaginando onde essa conversa os levaria. Mas sabia aonde queria ir. Por que havia uma pergunta que, como todos os moradores de Marigold, queria muito fazer.
	Alicia  comeou cauteloso.  Essa regra sobre namorar um ms lunar...
	Que voc concordou em seguir  interrompeu Alicia.
Sean continuou, como se no houvesse ouvido. Afinal, no concordara com nada.
	Essa regra...  comeou de novo.
	Sim?  perguntou Alicia sria.
	Por que voc a estabeleceu?  perguntou, com um sorriso encantador.

CAPITULO V

Ele jamais imaginaria que a pergunta fosse to I difcil de responder, nem que ela ficasse to surpresa. Com certeza, ela j ouvira a pergunta muitas vezes, de vrias pessoas. Por exemplo... Sean no sabia. Talvez de todos os homens solteiros com quem sara? Pela expresso do rosto delicado, era um assunto do qual no gostava de falar, porque, simplesmente, no respondeu.
	Alicia  repetiu, imaginando que talvez no tivesse ou vido, ou estivesse distrada.
Ela continuou a fit-lo em silncio, por alguns momentos, e ento sacudiu a cabea. Mas continuou calada.
	E ento?
Dessa vez ela disse uma nica palavra.
	Bem...
Sean tentou novamente, usando outra estratgia.
	Imagino que essa no seja uma pergunta nova para voc  disse, expressando o que pensava.
	No... no   disse, em um tom firme.
Ento Sean esperou, servindo-se de mais um punhado de pipocas, e tomando mais um gole de vinho. No costumava sacrificar uma de suas preciosas garrafas para acompanhar pipocas no drive-in. Mas a ocasio era especial, e Alicia merecia o melhor.
E alm disso, o Rothschild, safra de 83, combinava muito bem com pipocas.
Ao ouvir um suspiro a seu lado, voltou a ateno para Alicia outra vez.
	Acho que merece uma explicao  comeou, lentamente, girando o clice entre os dedos.
	Tem de admitir que  uma regra pouco convencional.
Ela assentiu, meio relutante.
	Esquisita,  o que quer dizer...
	Liberada  corrigiu ele.
Mais uma vez, ela suspirou, tomando um gole de vinho.
	Para simplificar, Sean, o motivo pelo qual no namoro durante mais de um ms lunar  que no posso confiar em mim, quando o assunto  homens.
Era engraado, mas Alicia parecia achar que aquilo era realmente muito srio.
	O que quer dizer?  perguntou ele. Talvez estivessem falando de coisas diferentes.
Ela deu de ombros, e levou o copo de vinho aos lbios, tomando mais um gole.
	Acho que no posso confiar em meu julgamento quando o assunto se refere aos homens. Tenho uma tendncia a me envolver com... bem, tipos que so mau carter.  E vendo a expresso no rosto de Sean, emendou depressa.   claro que no estou falando de voc.
	Obrigado  respondeu ele, secamente.
Alicia voltou a fitar o copo, e continuou baixinho.
	Tive algumas experincias ruins com os homens. E no pretendo repeti-las.
Ento era isso?, pensou Sean.
	Sem querer ofend-la, Alicia, todas as pessoas solteiras j tiveram experincias ruins com o sexo oposto.
Ela sacudiu a cabea, evitando fit-lo.
	No como as minhas.
Sean riu, achando que ela exagerava.
	Quer apostar?
Ela ergueu a cabea depressa, e o observou em silncio, como se no tivesse certeza do que dizer. Por fim, perguntou baixinho:
	J foi noivo?
	No  respondeu Sean depressa.  Nem cheguei perto disso.
	Bem, eu j fui.
Ele ficou satisfeito ao ver que ela no parecia nem um pouco feliz com isso. Mas, por mais estranho que fosse, sentiu-se perturbado pelo fato de que Alicia pudesse ter amado outro homem a ponto de desejar ficar com ele a vida toda.
Outro homem? Ao perceber no que pensara, Sean franziu a testa. Por que no um homem? Outro homem sugeria que ele considerava o ex-noivo de Alicia um rival. Mas como poderia ser um rival, se Sean era apenas mais um namorado de um ms lunar?
E por qu, de repente, estava com uma dor de cabea to forte?
Ele abriu a boca para comentar, mas Alicia continuou, sem lhe dar chance.
	Meu primeiro noivo...
	O qu?  interrompeu Sean, sem poder se conter.  Primeiro?
Ela olhou pela janela, o rosto bonito parecendo sem expresso. Sean notou que estava um tanto plida, e ao falar, a voz soava cheia de mgoa.
	Sim.
	Desculpe a curiosidade  comeou Sean cauteloso.  Mas quantos noivos teve?
Ainda olhando para a escurido da noite, ela ergueu dois dedos.
	S dois.
	S dois?  repetiu Sean, incapaz de ocultar a surpresa.
Mesmo no escuro, pde perceber que ela corava.
	Como estava dizendo, meu primeiro noivo no apareceu na igreja, no dia do casamento, porque estava fora da cidade. 
	Fora da cidade? No dia do casamento?
Ela assentiu, com expresso sria.
	Aonde ele tinha ido?
	Puerto Vallarta.
	Ouvi falar que Puerto Vallarta  um lugar muito lindo, e...  comeou Sean, tentando amenizar a tenso que percebia nela.
	Foi com uma danarina chamada Rhonda  continuou Alicia bruscamente.
	Oh...
	E usou as passagens areas e as reservas de hotel, que tnhamos feito para a lua-de-mel.
	Oh...
	Meu segundo noivo  continuou ela, a voz ainda carregada de mgoa.  No foi ao casamento porque ficou preso.
Sean observou-a por alguns instantes, sem entender.
	Preso?
	Sim.
E quando ela no disse mais nada, perguntou, um tanto cauteloso.
	Quer dizer que ficou preso no trabalho?
	No.
	Em um congestionamento?
	No.
	Em um acidente de carro?
	No. Foi preso mesmo. Levado para a priso. 
Dizendo a si mesmo que no devia faz-lo, mas incapaz de resistir, Sean perguntou.
	Preso por qu?
Alicia respirou fundo, como se precisasse de flego para responder.
	Bigamia.
	Oh...
	Na verdade, ele j tinha trs mulheres quando me pediu em casamento. Agora sabe porque  to importante que eu no me envolva com ningum.
Na verdade, Sean no via as coisas desse modo, mas algo na atitude dela o impediu de dizer.
	E acha que a regra do ms lunar  uma garantia para que no haja novos aborrecimentos?
	Acho que  suficiente  disse Alicia, um tanto secamente.
	Nunca namora mais do que quatro semanas?  perguntou Sean, sem saber ao certo por que a ideia o deixava to desconfortvel.
	Nunca.
	De jeito nenhum?
	De jeito nenhum.
	Entendo que funcione  comeou cauteloso.  Se estiver saindo com algum que no lhe agrade verdadeiramente.
Ela virou-se e fitou-o com uma expresso confusa. Pelo menos, estava prestando ateno nele, pensou Sean, continuando depressa:
	Mas, e se ao final das quatro semanas, estiver gostando do sujeito?
	Termino o namoro assim mesmo.
As sobrancelhas de Sean franziram-se de pura surpresa.
	Termina o namoro, mesmo que esteja gostando do rapaz?
	Sim.
	Por qu?
	Porque no corro o risco de am-lo, de querer casar com ele, e de ser abandonada outra vez.
Sean no aceitou a resposta facilmente.
	E se realmente tiver vontade de continuar o namoro?
Ela sacudiu a cabea e fitou-o, parecendo confusa.
	Isso nunca aconteceu.
Mais uma vez, uma estranha sensao de alegria dominou Sean, que no se preocupou em entend-la.
	E se acontecer?  insistiu.
	No acontecer.
	E se acontecer?  repetiu Sean.
Ela engoliu em seco e hesitou uma frao de segundo, antes de responder.
	Acho que terminaria o namoro, de qualquer maneira.
	Mas por qu?  perguntou Sean, verdadeiramente surpreso com a resposta.
Ela ergueu os ombros, em um desafio, mas logo deixou-os cair, desanimada.
	No quero ser magoada novamente.
	E acha que pode impedir isso, se namorar apenas por quatro semanas?
	Sim.
	 esse seu plano?  perguntou incrdulo.
Mais uma vez, ela corou, mas por outro motivo. Estava com raiva e respondeu friamente.
	 meu plano. E  muito bom.
	Como sabe?
	Porque tem funcionado bem.
	At agora  comentou Sean.
	Acredite, sr. Monahan, ainda funciona, e muito bem.
Ele abriu a boca para retrucar, mas percebeu que era melhor ficar quieto ou pioraria tudo. Tinha certeza de que podia lidar com aquela situao, afinal de contas, era Sean Monahan.
No segundo encontro de Alicia com Sean Monahan, as coisas no correram to bem. Enquanto o primeiro fora cheio de conversa, pontilhada por pipocas e vinho, o segundo tinha sido mais complicado.
Sean aparecera na casa de Alicia dirigindo um Jaguar, do modelo recm-lanado, que pertencia a Finn, vestindo um terno escuro, de corte perfeito. Ele a levara ao melhor restaurante de Marigold, o Bud Dooley Ta vem.
Embora no estivesse includo nos guias de gastronomia, Alicia acreditou que mereceria trs estrelas, talvez quatro, depois de observar o interior bem decorado. O prdio, uma antiga cervejaria em estilo Tudor, tinha sido restaurado, e os mveis escuros e elegantes eram do perodo elizabetano. Tapetes antigos cobriam o cho de madeira escura e tambm as paredes. Cada aposento que atravessavam tinha a decorao com uma cor predominante, sempre em tons escuros. A iluminao era suave, dando ao lugar uma atmosfera completamente romntica.
E por isso mesmo, uma fonte de problemas.
Alicia lembrou a si mesma que poderia ter evitado esses problemas. Tudo o que precisava ter feito era recusar o convite de Sean, duas noites atrs, quando a trouxera para casa, depois do encontro no drive-in. Afinal, tinha boas razes para faz-lo, j que o primeiro encontro no fora exatamente um sucesso.
Na verdade, essa fora sua inteno ao destrancar a porta do carro naquela noite. Mas ao virar-se, Sean erguera a mo, segurando delicadamente o queixo dela. Alicia ficara to surpresa, que nem sequer fora capaz de reagir. Ento, ele se inclinara, sem dizer uma s palavra, e a beijara de leve, no rosto. Nada mais. Depois, murmurara em um tom suave e sedutor, um boa noite, que a fizera estremecer dos ps  cabea.
Por um momento, ela apenas o fitou, sem saber o que dizer. Bem, no era exatamente isso. O beijo lhe dera algumas ideias, mas nenhuma delas podia ser expressa em voz alta. Ainda mais para algum que conhecera havia apenas uma semana. Assim que se conhecessem melhor, poderia...
Nada, no poderia nada, disse Alicia a si mesma, enquanto seguiam a relaes pblicas do restaurante at um salo especialmente romntico, e ainda mais escuro. No ia conhecer melhor Sean Monahan, no queria.
Forando-se a pr de lado esses pensamentos, tentou pensar em outra coisa. O que foi ainda pior, j que a lembrana do beijo de boa-noite voltou com toda intensidade. Suspirando, ela desistiu de lutar contra os pensamentos.
Apesar do encontro um tanto incomum, no drive-in, Sean fora um perfeito cavalheiro ao lev-la para casa. Ela j tivera encontros suficientes para saber que, em geral, terminavam com o rapaz agarrando a garota, beijando-a intensamente, e reclamando quando ela decidia parar por ali. Ou, quando o homem entrava para um caf, ou o ltimo drinque, e acabava ficando horas, falando dos negcios, seus planos, o que esperava de uma mulher...
Sean apenas a acompanhara at a porta, esperara que a destrancasse, e a beijara suavemente no rosto. Por fim, acariciara levemente a linha do queixo, com a ponta dos dedos, e lhe perguntara se poderiam ver-se novamente na sexta-feira. E Alicia no conseguira dizer nada, alm de sim.
Ento Sean sorrira, dizendo que viria busc-la s seis, e pedindo-lhe que vestisse algo especial, pois faria uma surpresa. Ela apenas assentira, e Sean dera outro sorriso encantador, antes de ir embora.
Ela no conseguia parar de pensar no que poderia acontecer, e escolhera um de seus vestidos mais bonitos, em um tecido fino, de tom levemente dourado. Sem mangas, caa em pontas irregulares at abaixo dos joelhos, e delineava o corpo bem-feito, realando as curvas dos seios e quadris.
Naquele momento, Alicia desejou que Sean houvesse escolhido outro lugar. O boliche, por exemplo, embora ela no fosse boa jogadora. Ou a lanchonete, outro ponto de encontro de Marigold. Se ele a levasse a um desses lugares, teria ficado to pouco  vontade, que seria fcil recusar um novo convite.
Mas o Bud Dooley Tavern era exatamente o tipo de lugar que ela gostava. E Sean Monahan, vestido em um elegante terno escuro, era absolutamente irresistvel. Ela olhou-o de soslaio, enquanto acompanhavam a relaes pblicas do restaurante, que os conduzia  mesa. Ele cortara e lavara os cabelos, que brilhavam  luz suave das velas. Era evidente que acabara de se barbear, e cheirava a... Alicia inalou o perfume, profundamente, suspirando ao exalar. O misto de loo ps-barba, e algo puramente masculino, era embriagador, e ela no conseguia ficar imune.
A relaes pblicas sorriu para Sean, ao entregar-lhe o cardpio, encadernado em couro, e tornou a sorrir, ao entregar o cardpio para Alicia. A jovem, Alicia no pde deixar de notar, era muito alta, loira e atraente e no parava de sorrir para Sean, mesmo ao se afastar, ficando  entrada do salo.
	 sua amiga?  perguntou Alicia, incapaz de se controlar, enquanto tentava olhar as sugestes de massas, dizendo a si mesma que no estava com cime.
	O qu?  perguntou Sean, erguendo o olhar do cardpio.
 Quem  minha amiga?  indagou surpreso.
Alicia fez um leve gesto de cabea, evitando olhar para a jovem. No s porque seria pouco educado, mas tambm porque sabia que a garota continuava a sorrir para Sean.
	A loira  disse, em um impulso, sabendo que demonstrava mesmo estar com cime.   sua amiga?
	Est falando de Natasha?  perguntou, com a sombra de um sorriso surgindo-lhe nos lbios.
Natasha, ela repetiu para si mesma. Era evidente que a garota teria um nome como aquele, extico e misterioso. Ela apenas resmungou um sim.
O sorriso de Sean alargou-se, e Alicia desejou que ele no sorrisse daquele jeito. No s porque era muito atraente e irresistvel, mas tambm porque confirmava que percebera sua reao.
	Sim, conheo Natasha h muito tempo. Costumvamos ir  escola juntos.
Ainda fingindo que no estava interessada, mas sabendo que agia como tola, Alicia perguntou:
	Foi s isso que fizeram juntos?
	No.
A resposta quase a fez perder totalmente o autocontrole.
	No? O que quer dizer?  perguntou, percebendo, tarde demais, que acabava de fechar o cardpio com fora, e olhava para Sean como uma amante ofendida.
E ele ainda ousou rir dessa reao!
	Ns trabalhamos juntos  respondeu, sem se importar em disfarar como estava gostando do sbito interesse de Alicia.
	Oh  disse Alicia, relaxando ao ouvir a resposta e vendo que ele parecia sincero.
Assim, pegou novamente o cardpio, e comeou a escolher.
	E tambm...  continuou Sean, sem tirar os olhos do cardpio  ...foi minha namorada.
	O qu?  perguntou Alicia, fechando novamente o cardpio, com um gesto brusco.
	Por um ano  explicou ele, olhando as sugestes do cardpio com interesse.  Foi um relacionamento intenso. Olhe, parece que os medalhes ao molho madeira so uma boa sugesto.  Ele ergueu o olhar, e fitou-a.  Do que voc gosta?
Alicia no tinha a menor inteno de dizer do que gostava.
	Ento foi sua namorada por um ano?  repetiu, culpando-se por ser to insistente.
	Quem?  perguntou Sean, parecendo surpreso.
	Ela.
	Ela quem?
Alicia suspirou impaciente, e fez um leve gesto de cabea na direo da jovem.
	Natasha  sussurrou.
	Ah, ela  disse Sean, com um sorriso irresistvel. Mas no deu qualquer explicao.
	Ela mesma  confirmou Alicia. Agora que j fizera papel de boba iria at o final, e queria todas as respostas.
Mas Sean no respondeu, fitando-a diretamente.
	Ento, do que voc gosta?  perguntou, como se a coisa mais importante do mundo fosse escolher o jantar.
	H quanto tempo vocs namoraram?  insistiu Alicia.
	Quem?
	Natasha!
	Oh...  Ele pareceu estar pensando.  Bem, foi no vero em que ganhei minha primeira bicicleta. Era azul-safira, com o assento amarelo. Muito bonita. Ento deve ter sido em...
Ele parecia estar fazendo contas, mentalmente, e o corao de Alicia batia forte, aguardando a resposta.
	Estvamos na segunda srie  disse por fim.
Alicia fitou-o, muito sria, e quando Sean comeou a sorrir, o corao dela deu um salto.
	E j tinha namorada?
De algum modo isso no a surpreendia. Sean Monahan, provavelmente tivera namoradas desde que dera o primeiro passo. Ele assentiu e explicou.
	Como disse, foi um relacionamento intenso, que durou um ano  repetiu Sean.  Sempre trocvamos nossos lanches, e eu deixava que ela carregasse meus livros, na volta para casa.
Alicia observou-o, em silncio, por alguns momentos.
	Entendo  disse por fim.
	Escute, foi um grande passo em nosso relacionamento  contou Sean.  Muitos garotos ficariam embaraados em deixar uma menina carregar os livros para eles.  Ele sorriu satisfeito.  Mas no eu,  claro. Nunca tive problemas com minha masculinidade, mesmo naquela poca. Era por isso que as garotas gostavam tanto de mim.
Alicia apenas sacudiu a cabea, sem saber o que dizer. Em seguida, recriminou-se mais uma vez por ter revelado to facilmente o que sentia, quanto estava interessada no passado dele, dando a impresso de que poderiam...
No. No haveria nada entre eles. Dois encontros no significavam nada. O que havia entre Sean e ela era apenas... Bem, no tinha certeza, mas dois encontros nem sequer significavam que havia um relacionamento. Nem compartilhar uma garrafa de vinho no escurinho do cinema. E nem um beijo de boa-noite... no rosto.
	E ento?  perguntou Sean, pela terceira vez.  Do que gosta?
Dessa vez, no entanto, parecia haver algo mais na pergunta. Ele no parecia estar falando da comida, e continuava a fit-la intensamente.
Alicia suspirou, voltando a olhar o cardpio.
	Na verdade, ainda no decidi.
A voz dele era suave e intensa, ao responder.
	Ento, Alicia, procure saber o que seu corao quer.
Ela no achava que fosse boa ideia, no s porque a sugesto trazia pensamentos que preferia evitar, mas porque estar to perto dele fazia um fogo lquido percorrer-lhe o corpo, provocando sensaes que no gostaria de revelar.
Bem lentamente, voltou a fit-lo e percebeu que Sean a observava com uma expresso inegvel de desejo. E algo mais, que ela no pde deixar de notar. Algo terno, quase doce. E essa ternura, mais do que o desejo, perturbava-a intensamente, deixando-a confusa.
	Sean, eu...
O que quer que Alicia pretendesse dizer, e nem ela sabia ao certo, foi interrompido pela chegada do garom. Sean tambm mudou de imediato, o rosto revelando apenas uma expresso bem-humorada.
	Minha... amiga..,  disse ao garom  ainda est escolhendo. Por favor, d-nos mais alguns minutos.
Vrios minutos, pensou Alicia. Porque no tinha certeza se conseguiria deixar de olhar para Sean Monahan.
Mais uma vez, ela suspirou. Pelo jeito a noite seria bem interessante.

CAPITULO VI

Enquanto Sean dava a volta no Jaguar do irmo, para abrir a porta do lado do passageiro, dois pensamentos o dominavam. O primeiro, era que Finn realmente sabia escolher seus carros. O Jaguar negro era elegante, potente e fantstico de dirigir. E o segundo pensamento era que Alicia Pulaski era realmente uma mulher linda, excepcionalmente atraente. Esguia, elegante, graciosa, ardente... Bem, essa ltima qualidade ele apenas intua, j que ainda no tivera oportunidade de... comprov-la. Mas, pelo modo como os dois estavam se entendendo, no demoraria muito. Com certeza, menos de um ms lunar.
Mal podia esperar.
Depois de abrir a porta, estendeu a mo para Alicia, ajudando-a a sair do carro, e sem querer, inalou profundamente o perfume feminino. O cheiro era muito bom, e dessa vez no era po fresco e bolinhos de canela, mas algo picante, extico e excitante.
Ela tambm parecia extica, pensou, incapaz de afastar os olhos dela, embora houvesse observado cada detalhe durante a noite toda, todas as vezes que ela no estava olhando. E gostara muito do que tinha visto. S esperava que ela no houvesse notado mas, se houvesse, teria percebido o que seu olhar expressava, claramente.
San afastou os pensamentos obscenos e voltou a fit-la, sabendo que apenas isso no o satisfaria. Alicia prendera os cabelos, em um apanhado no alto da cabea, que parecia estar seguro apenas por dois grampos dourados. Sean teve a impresso de que poderia solt-los com um s gesto, libertando a cascata cor de cobre, que tentavam conter. Ele vira que os cabelos de Alicia, mesmo presos em uma trana, chegavam quase at a cintura, e podia bem imaginar como seria sentir as mechas macias entre os dedos.
E como imaginava!
Tambm imaginava como seria ter os cabelos sedosos espalhando-se em seu peito nu, enquanto Alicia, tambm nua, beijava-o intensamente. Podia tambm imaginar, alis, muito bem, como seria ter as pernas dela rodeando-lhe os quadris, e como seria quando se beijassem, no auge da paixo, e como seria quando ela se acomodasse sobre ele, para que a penetrasse e...
Estava indo longe demais, disse a si mesmo, tentando controlar-se.
	Gostaria de entrar e tomar um caf, Sean?
E agora...
Quando os olhares se encontraram, percebeu que Alicia estava to surpresa quanto ele com a oferta. No que Sean houvesse feito qualquer coisa, naquela noite, que a fizesse desejar fugir dele, mas at o momento no parecera ansiosa por permanecer ao lado dele. Apesar dos olhares intensos que haviam trocado, e da reao que tivera por causa de Natasha, que ele ainda no conseguia entender completamente. Naquele momento, agira exatamente como uma amante ciumenta. E ele gostara muito.
	Adoraria tomar um caf  respondeu, depressa, antes que ela pudesse mudar de ideia, o que parecia perto de acontecer.
Ele no sabia dizer se Alicia gostara ou no da resposta, mas o pequeno sorriso que deu era simplesmente encantador. Havia algo diferente nela, algo que no se encontrava nas outras pessoas. Talvez pela maneira diferente como fora criada, ou simplesmente porque era, de fato, especial. O que quer que fosse, fazia Sean acompanh-la at a casa, como um cachorrinho, satisfeito com a ateno que recebia.
Os dois mal conversaram enquanto subiam os degraus de madeira, e Alicia abria a porta da frente. Sean no prestara muita ateno na outra noite, quando a trouxera para casa e, na verdade, por que o faria, se estava olhando para Alicia? Mas agora observava tudo. O chal era pintado de vermelho-escuro e branco, pequeno e bem-arrumado. Flores e folhagens espalhavam-se  volta dele, e tambm na pequena varanda e no peitoril das janelas.
No estava surpreso ao saber que Alicia gostava de plantas, nem por perceber que se dedicava  jardinagem.
O interior da casa era aconchegante, com tapetes floridos, cho de madeira polida, cadeiras e um sof, cobertos de um tecido com rosas enormes. Algumas mesinhas antigas espalhavam-se pelo lugar, cobertas de... coisas femininas, como pequenos vasos de cristal com flores, enfeites delicados em porcelana, uma tige-linha cheia de ptalas de flores secas e perfumadas. A prateleira de pedra, sobre a lareira, tambm estava cheia de bibels, castiais, e o que parecia ser um antigo relgio do vov.
E por mais que dissesse a si mesmo que o lugar era totalmente feminino, Sean no podia negar que se sentia  vontade ali. Gostara demais da casa de Alicia, provavelmente, porque era muito parecida com ela mesma.
Estava pensando que era surpreendente que ela no tivesse gatos, para completar uma casa como aquela, quando viu um enorme monstro cinzento caminhando na direo dele. E embora a criatura realmente parecesse um felino, o olhar era quase humano, alis, muito mal-humorado.
	Este  Luar  explicou Alicia, quando percebeu que Sean o vira.
Sean sorriu ao ouvir o nome. S Alicia seria capaz de dar um nome to potico e delicado, a um bicho que, decididamente, era mal-humorado.
	Tem duas irms, Marmalade e Winterbourne. Mas so tmidas, e duvido que apaream.
E como se quisessem desmenti-la, as duas gatas entraram na sala. Uma era branca como a neve, e a outra, exatamente da cor de gelia de laranja. Alicia conseguira dar nomes previsveis s gatas, mas cheios de significado. Por que no estava surpreso?
	Vou ligar a cafeteira  acrescentou ela, parecendo um tanto sem flego.
Sean voltou a ateno para ela, tentando imaginar por que parecia to ofegante. Logo afastava-se pelo corredor, o assoalho antigo, de madeira, rangia sob os passos dela, e sem querer, ele sorriu.
San acompanhou-a, observando as aquarelas penduradas no corredor. Os aposentos pelos quais passava seguiam o mesmo estilo do resto da casa. Um deles, sem dvida, era o escritrio, que mesmo assim mantinha o charme do restante da casa. O outro era o quarto de Alicia, e o pulso dele se acelerou, ao notar os detalhes. No podia observ-lo diretamente, pois Alicia poderia interpretar mal tanto interesse. Ou melhor, poderia interpretar muito bem. E o poria para fora daquela casa de imediato.
Ainda assim, Sean pde perceber um pouco da intimidade de Alicia. A colcha de croch, cor de marfim, e a cama grande, com quatro colunas, que parecia muito confortvel. Alis, admitiu Sean para si mesmo, qualquer cama pareceria confortvel para dormir ao lado de Alicia.
Uma pilha de almofadas, em tecidos de cor clara, estava empilhada junto  cabeceira, dando ao lugar uma aparncia ainda mais acolhedora. Uma cadeira de balano, de madeira escura, ficava em um dos cantos do quarto, perto de uma cmoda, que combinava com ela. Com certeza, pensou Sean, estaria cheia de coisas bem femininas, com rendas, fitas, e tecidos macios. Sobre uma mesinha, perto da janela com cortinas de renda, estavam vasos e cestos com plantas. O papel de parede tinha um estilo antigo, com flores cor-de-rosa contra o fundo amarelo, e parecia perfeito para o ambiente.
Sean apenas conseguia pensar que havia algo muito ertico na possibilidade de fazer amor com Alicia, naquele lugar to feminino. O quarto o fazia sentir-se ainda mais viril, e seu desejo, isto , sua inteno de fazer amor com ela, naquela cama, multiplicou muitas vezes.
	No vai demorar  disse ela, da cozinha.
Espero que no, disse ele a si mesmo, virando-se para acompanh-la.
	O caf  explicou Alicia, como se temesse que ele no houvesse entendido, ou pudesse interpret-la mal.  claro que no havia o que interpretar mal, mas...
Sean apenas assentiu, sem revelar o que estivera pensando.
	Quer sobremesa?  ofereceu, parecendo nervosa.  Fizemos bombas demais hoje, e todos levaram algumas para casa. Tambm trouxe algumas, e ns no comemos sobremesa no restaurante.
No, lembrou Sean. Alicia no pedira sobremesa nem ele oferecera, no s porque estava satisfeito, mas porque esperava comer a sobremesa ali. Ela pensava na delicada massa da bomba de chocolate, recheada de um creme suave. E ele pensava em algo delicado e suave, como ela, e em fazer amor, a noite toda.
Seria possvel comer bombas de chocolate sem espalhar creme sobre os lenis imaculados?
 Adoro sobremesa  disse ele, e Alicia sorriu nervosa.
Sean sorriu tambm, triunfante.
Ia ser fcil, pensou Sean, muito fcil.
E se Alicia tivesse chantilli em casa, poderiam...
Alicia gostava muito do modo como Sean a fitava, mas no gostava do que sentia, quando ele a olhava daquele jeito. Censurou-se e corrigiu-se. Gostava muito do que sentia quando ele a fitava, embora soubesse que no deveria gostar!
De repente estava to confusa... E meio tonta. E com calor... Por que a casa parecia to quente?
Sacudindo de leve a cabea e esperando que ele no houvesse notado, tentou prestar ateno no que estava fazendo. O que era mesmo? S conseguia fitar Sean, e maravilhar-se com o modo como a observava, agora diferente de como era no comeo da noite.
Algo mudara entre eles e, ao admiti-lo, Alicia sentia-se ainda mais tonta e com mais calor. O olhar de Sean parecia lanar fascas, mandando uma mensagem perturbadora.
Tudo correra bem no restaurante... depois do incidente por causa de Natasha, admitiu Alicia. E agora que estavam na casa dela, e devia sentir-se  vontade...
Bem, no estava nem um pouco  vontade.
Estava agitada e ansiosa e com a sensao de que tinha algo muito importante a fazer, embora no soubesse o qu. A seu lado estava Sean, deixando claro que preferia Alicia como sobremesa, em vez das bombas de creme.
Era isso! Ele realmente pensava nela como a sobremesa, e por isso continuava a fit-la daquele modo. E era por isso que ela se sentia daquele modo. E gostava tanto.
No... Estava acontecendo de novo. Alicia estava se apaixonando por um homem bonito, atraente... No! Ela conteve um gemido de frustrao. No podia estar acontecendo. No agora. Nem tinham completado a primeira semana do ms lunar. No era justo.
Era terrvel.
Gostava de Sean e no queria terminar o namoro. Esperava passar mais trs semanas a seu lado, sem sucumbir ao charme irresistvel que irradiava. Estava certa de que conseguiria, tinha certeza de que sua experincia com os homens a ajudaria a agir corretamente. Nem sequer duvidara de que Sean seria mais um namorado da regra de um ms lunar.  claro que ele era muito mais interessante do que qualquer outro homem que conhecera em Marigold, mas acreditava que tinha fora de vontade suficiente para resistir. Ela suspirou, resignada. Era melhor terminar tudo, agora mesmo. Assim que tomassem o caf e terminassem de comer as bombas de creme, terminaria tudo com Sean.
Precisaria arrumar uma boa desculpa, j que a noite fora perfeita. Ele no acreditaria se lhe dissesse que no combinavam, e tambm no entenderia se dissesse que se sentia pouco  vontade ao lado dele, porque tudo que acontecera naquela noite provava o contrrio.
Naquela noite haviam conversado sobre tudo, desde o trabalho e a famlia, at as esperanas e sonhos de cada um... Mes"mo quando tinham opinies diferentes, de algum modo um parecia completar o ponto de vista do outro. Era quase como se houvessem sido feitos um para o outro. O que,  claro, no era possvel. Alicia, apesar de sua conscincia mstica e espiritual, no acreditava em destino. Acreditara um dia, no passado, mas fazia muito tempo.
Ainda assim, era to bom estar ao lado de Sean.
O que fazer, o que fazer...
 Parece que o caf est pronto  disse Sean, com um gesto na direo da cafeteira, sobre o balco.
As palavras dele interromperam-lhe os pensamentos, e decidiu adiar a soluo do problema e aproveitar o momento. Pelo menos, aproveitaria mais um pouco aquela sensao maravilhosa que a envolvia.
Sorrindo para Sean, atravessou a cozinha e pegou uma bandeja. Depois de colocar as bombas de creme em pratos de sobremesa, com desenho de rosas, arrumou as xcaras de porcelana, enchendo-as com o caf quente. Ento, sem perguntar o que Sean preferia, pegou o aucareiro e o pote de creme fresco, pois era assim que ela gostava de tomar o caf. Toda essa preparao ajudou-a a evitar erguer o olhar para Sean, pois sabia que ele continuava a fit-la de jeito perturbador.
Ao terminar de colocar tudo na bandeja, para levar at a sala, o silncio entre eles j comeava a parecer tenso. Alicia estava consciente do olhar de Sean, observando cada movimento dela, e do calor que lhe percorria o corpo, cada vez mais intensamente.
Era isso. Tinha de terminar tudo naquela noite mesmo. O simples fato de t-lo a seu lado j parecia suficiente para faz-la perder o autocontrole.
	Posso ajudar?  perguntou Sean, aproximando-se ainda mais.
Pode, sim. Pode parar de ser to bonito, charmoso, atraente. Isso ajudaria bastante.
Mas, em voz alta, disse apenas.
	Acho que est tudo pronto.
	E verdade.
Ela ergueu o olhar, surpresa com o tom de voz rouco, profundo e muito sedutor e, ao encontrar o olhar dele, to intenso quanto a voz, percebeu que a bandeja comeava a escorregar de suas mos. Incapaz de evitar o desastre, Alicia olhou, paralisada, enquanto a bandeja comeava a cair.
Foi apenas a interveno rpida de Sean que evitou a catstrofe. Com gestos precisos, ele agarrou a bandeja, colocando-a sobre a mesa, sem derramar nem sequer uma gota de caf. Alicia apenas observou tudo, como se fosse outra pessoa, e aquilo no estivesse acontecendo ali, em sua prpria cozinha. Ento Sean fitou-a e, de repente, ela percebeu como ele estava perto. To perto que podia sentir a colnia masculina que usava, podia ver as fascas que pareciam brilhar nos olhos azuis, podia sentir o calor que ele emanava.
E ento ele se inclinou e cobriu a boca de Alicia com a dele. Foi um beijo extraordinrio, especial. Mas ele era um homem especial.
Sean roou os lbios dela, levemente, uma, duas, trs vezes, com a boca exigente, provocando... Alicia queria que nunca acabasse. E ele continuou, devagar, provocando os sentidos dela.
O que mais Alicia poderia fazer, seno entregar-se quela sensao maravilhosa?
Alicia ouviu ao longe um gemido abafado e percebeu, surpresa, que era sua prpria voz. No conseguia afastar-se dos dedos fortes que lhe acariciavam os braos nus, lentamente, nem das mos que subiam e desciam, dos ombros aos pulsos, enquanto continuava a tocar-lhe os lbios, com a boca exigente.
Antes que pudesse pensar, Alicia deu um passo  frente, e os corpos se tocaram. Ento, em um impulso, colocou as mos no peito dele, deslizando-as lentamente para os ombros fortes. O tecido do palet era liso e frio, contrastando com o calor que ele irradiava.
Dessa vez, foi Sean quem gemeu, porque o toque das mos dela era exatamente o sinal que esperava. No momento em que ela o tocou, Sean aprofundou o beijo, passou um brao  volta da cintura esguia e puxou-a para mais perto, enquanto a outra mo subia at o pescoo delicado. Alicia correspondeu, colocando uma das mos na nuca de Sean, enquanto a outra enterrava-se nos cabelos sedosos. Ento, inclinou a cabea para beij-lo melhor.
Sean percebeu sua inteno e afastou-se alguns centmetros, com os lbios entreabertos, como se a convidasse. Instintivamente, Alicia deslizou a ponta da lngua pelo lbio inferior de Sean, sorrindo ao perceber a surpresa dele. Deslizando a mo pelo pescoo forte, puxou-o para mais perto. Ento, sentindo-se ousada e atrevida, traou mais uma vez o contorno dos lbios com a lngua, antes de aprofundar o beijo, sentindo na boca o gosto de Sean. Era maravilhoso. De repente estava faminta e sabia que caf e bombas de creme no seriam suficientes para aplacar essa fome.
Podia perceber que Sean tambm estava perturbado, porque mexeu a cabea levemente, beijando-a, dessa vez com mais e mais paixo. Com um movimento rpido, puxou os grampos que prendiam os cabelos, deixando-os cair em cascata, at a cintura fina. Enterrando as mos nas mechas sedosas, beijou-a intensamente.
Ela no tinha certeza de quanto tempo havia se passado, mas ele no lhe soltara os cabelos, embora as mos percorressem as costas macias, os ombros e o pescoo. E ao beij-la no pescoo, quando Alicia inclinou a cabea para trs, colocou as duas mos, possessivamente sobre as ndegas firmes, puxando-a at que ficasse entre as pernas dele. A sensao que esse contato ntimo provocou foi to intensa, que Alicia gemeu.
Como se respondesse a essa reao intensa, Sean deslizou os lbios pelo pescoo macio, descendo at os seios, tocando com a ponta da lngua o vale que os separava.
Alicia sentiu os joelhos enfraquecerem. Estava quase cedendo ao que ele queria. E que ela tambm queria.
Nem Alicia acreditou que pudesse mover-se to depressa. Em um minuto estava presa nos braos de Sean, pronta a entregar-se, e, no seguinte, estava em p, do outro lado da mesa da cozinha, segurando-se na beirada para no cair e tentando pensar de forma coerente.
Tudo aquilo tornaria ainda mais difcil o trmino do namoro.
Quando, finalmente, conseguiu olhar para Sean, viu que estava to fora de controle quanto ela. Os cabelos escuros estavam completamente despenteados, o n da gravata desfeito, e embora Alicia no se lembrasse de t-lo feito, as mos de Sean tinham estado ocupadas com ela o tempo todo, e por certo no teriam soltado a gravata. E os olhos dele...
Os olhos estavam cheios de desejo e pareciam espelhar o mesmo que ela sentia.
A vontade de Alicia era atirar-se nos braos dele, jogando para o alto toda cautela, e rolar pelo cho at saciar a paixo. Mas, de algum modo conseguiu falar:
	Isso no deveria ter acontecido.
Ele continuou a fit-la com a mesma expresso cheia de desejo, e afirmou:
	 engraado que fale isso. Pois algo me diz que no s deveria ter acontecido, como era inevitvel. E...  continuou pausadamente.  Algo me diz que vai acontecer de novo. Em breve.
Alicia sacudiu a cabea.
	No, no acontecer  disse, mas as palavras saram sem a menor convico.
A boca dele curvou-se em um meio sorriso.
No mesmo?
Ela sacudiu novamente a cabea, mas dessa vez no conseguiu falar.
Sean respirou fundo, e Alicia no pde deixar de notar como estava ofegante. Sem dizer nada, ele deu a volta na mesa, aproximando-se dela. Alicia disse a si mesma para correr, fugir dali, fazer qualquer coisa... Mas o olhar de Sean a manteve imvel.
Ele parou a poucos centmetros de distncia, e Alicia no sabia se isso era bom. Ento ele ergueu a mo e pegou uma mecha de cabelos, enrolando-a muitas vezes no dedo indicador. Em seguida, inclinou-se e beijou-a de leve, no rosto. Era um beijo suave, que no combinava com a paixo que acabavam de compartilhar.
Sean deu um passo para trs e soltou os cabelos, dizendo baixinho.
	Tenho que ir.
Alicia engoliu em seco e gaguejou, sem saber o que dizer.
	Mas... mas nem comemos a sobremesa.
Ele sorriu de um modo absolutamente sedutor, que fez o corao de Alicia disparar.
	Comemos, sim  disse suavemente.  S que no foi to... bom, quanto ser da prxima vez.  Ento virou-se depressa e saiu da cozinha.
E quando ouviu o rudo da porta que se fechava atrs dele, a nica coisa que Alicia pensou foi que esquecera completa-mente sua inteno de terminar tudo com Sean, antes que as coisas escapassem de seu controle.

CAPITULO VII

A o acordar na manh seguinte, depois do encontro muito bem-sucedido com Alicia, quase podia jurar que tudo no passara de um sonho. Quase. Porque criara algumas fantasias bem interessantes, depois daquela primeira manh, quando visitara a padaria. Nos sonhos estavam entrelaados, completamente nus, em lugares diferentes, que variavam de uma praia ensolarada, at o elevador de uma estao de esqui. Ele gostara especialmente do ltimo.
Mas agora, enquanto despertava completamente e se espreguiava, satisfeito, relembrou, com um sorriso, a noite anterior. Tinha sido bem real, embora faltasse o cenrio da estao de esqui. Alis, muito real e agradvel. E ertico. Mal podia esperar para v-la novamente. S que no a veria naquele dia.
Sean tinha um plano para se assegurar de que o ms lunar corn Alicia se estendesse por um perodo maior, e era parte do plano no v-la naquele dia. Tinha formulado o plano na noite em que Finn o desafiara a namorar Alicia por dois meses, e ensaiara mentalmente, muitas vezes, cada detalhe dele, at decorar cada parte. E at aquele momento, tudo, at o menor detalhe, estava acontecendo de acordo com o previsto.
Bem, exceto pelo estranha sensao de calor que o atingira, desde o primeiro encontro. Era algo estranho e novo, mas agora, ao pensar nisso, Sean achava que calor era exatamente o que o Plano precisava para dar certo. O plano era perfeito e estava funcionando maravilhosamente.
E claro que alguns pequenos detalhes haviam escapado do Previsto, como as comdias no drive-in, em vez do trrido romance que ele imaginara estar em cartaz. Na verdade, talvez tivesse sido melhor. Um romance, cheio de cenas erticas, poderia ter apressado as coisas entre ele e Alicia, e arruinado o plano que traara com cuidado. Revendo a situao, percebia que tudo correra perfeitamente, com exceo, talvez, do' fato de que quase fizera amor com Alicia, adiantando assim o esquema previsto para executar em semanas, ou pelo menos, vrios dias. Tinham conseguido parar, no  mesmo? Ou, pelo menos, Alicia conseguira. No acontecera nada irremedivel. Tudo continuava conforme o plano. Bem, quase tudo.
Mas era um bom plano. Era mesmo.
Exceto por algumas coisinhas sem importncia, estava seguindo  risca o que traara. E naquele dia o plano estabelecia: Fique longe de Alicia.
Era especialmente importante manter distncia, considerando como a noite anterior terminara. Precisavam de um tempo para esfriar os nimos. Por mais que houvesse gostado da noite com Alicia, sabia que no devia sufoc-la com sua presena. Sem modstia, lembrou-se de que nenhuma mulher conseguia resistir a seus encantos. E depois da noite passada... Imaginava que tanto ele, quanto Alicia, deviam estar aliviados por terem parado.
Sean sorriu satisfeito, alongando o corpo flexvel enquanto segurava as barras da cabeceira da cama, sobre a cabea, em um gesto preguioso. Deitado completamente nu, fitando o teto do quarto, relembrou outra vez a noite anterior. Jamais conhecera uma mulher to boa de abraar quanto Alicia, pensou, sorrindo. Era macia, cheia de curvas, quente... completamente feminina. Ele suspirou ao lembrar a maciez dos cabelos, como de uma seda delicada, envolvendo-lhe os dedos, cobrindo-lhe as mos, roando em seus pulsos... Um homem podia se perder naqueles cabelos, pensou, fechando os olhos, e nunca mais encontrar o caminho de volta.
Por alguns momentos, entregou-se s lembranas at que elas se tornaram intensas demais. Abrindo os olhos, Sean decidiu que era melhor levantar-se.
Mas, em sua mente, persistia a imagem de Alicia, nua, com os cabelos soltos cobrindo a pele clara e macia.
Bem, pensou Sean, talvez no fosse to ruim v-la naquele dia, s por uns minutos. No queria que ela ficasse desesperada por no v-lo um dia, seria maldade. Ele poderia alterar o plano, um pouquinho, se quisesse, afinal, o plano era dele. E, com certeza, era um plano muito bom.
Como era sbado, Sean sabia que Alicia estaria trabalhando na padaria. Embora houvessem se conhecido, formalmente, na semana anterior, estava familiarizado com o movimento que o local tinha aos sbados, j que morava muito perto. Ele mesmo no costumava frequent-lo, pois preferia ovos e bacon no caf da manh. Mas passara por ali muitas vezes, especialmente nos finais de semana, e sabia que a padaria ficava cheia de fregueses.
Tambm ouvira dizer que os pes de amoras, bananas e nozes eram deliciosos, e os bolinhos de laranja com framboesa eram perfeitos para o caf da manh. Para aqueles que no eram carnvoros,  claro.
Ao chegar  padaria de Alicia, percebeu que aquela manh no seria diferente das outras. O pessoal da cidade adorava as guloseimas de Alicia, e se acostumara a frequentar o local, regularmente.
Ao passar pela porta da frente, percebeu que a loja estava lotada e, olhando  volta, viu que as pessoas seguravam um pedao de papel. Assim, abrindo caminho entre os clientes, caminhou at o balco e estendeu o brao para pegar uma senha na pequena mquina colocada sobre ele. Um adolescente passou a sua frente e agarrou o papel. Cedendo, porque era educado, e no porque o garoto fora mais rpido, pegou o papel seguinte. Olhando o nmero, virou-se para o painel luminoso na parede. E quase gemeu.
O nmero que pegara era sessenta e oito, e o painel assinalava em vermelho: quarenta e sete. Ele quase resmungou alguma coisa bem pouco educada antes de dar-se conta de que no se importava em esperar, porque atrs do balco estava Alicia Pulaski.
Ela vestia uma blusa branca estilo camponesa, saia curta e avental, alm de um leno, tambm branco, que cobria os cabelos presos em uma trana. O rosto estava corado pelo calor e pela atividade intensa, e, sem querer, Sean lembrou a noite anterior, e comeou a sentir tambm, um calor muito forte.
Embora ela estivesse ocupada e com pressa, os movimentos eram graciosos, e sorria ao atender a multido de clientes. Aos poucos, usando os cotovelos, Sean conseguiu aproximar-se do balco, mas ela no ergueu o olhar em sua direo, nem pareceu not-lo. Nem mesmo quando parou, quase em frente a ela. Ele era nmero sessenta e oito, e naquele momento o painel indicava o nmero cinquenta e nove.
O nmero cinquenta e nove, percebeu Sean, era Chuck Niels-sen, que conhecia desde o colegial e que sempre considerava alto demais, forte demais, loiro demais, mas que as garotas sempre tinham adorado como um verdadeiro deus nrdico.
Alicia, logo Sean constatou irritado, tambm no era imune a essas qualidades. Assim que ela disse o nmero, o olhar de Chuck encontrou o dela, e ento Sean percebeu a intensa vibrao entre os dois.
E a nica coisa que conseguiu pensar foi como tinha sido timo alterar os planos e aparecer por ali. Porque, embora Alicia Pulaski pudesse ser muito boa para estabelecer regras quanto ao tempo de namoro, no parecia se importar com a variedade de candidatos.
Antes que Sean pudesse abrir a boca para dizer algo, Chuck avanou, na frente dele, e parou junto ao balco, impedindo qualquer viso de Alicia. Pior ainda, Chuck sorriu e disse, em um tom profundo:
	Ol, Alicia.
Sujeito insuportvel!
Embora no pudesse v-la, Sean por certo pde ouvir a resposta, e logo percebeu que no gostou nem um pouco do tom de voz, doce e sensual, que ela usou para responder.
	Oh, Chuck, ol.
Por que ela falava daquele jeito?
	O que h de especial hoje?  perguntou Chuck.  Alm de voc,  claro  acrescentou em um tom mais baixo, acompanhado de uma risadinha.
Sean tentou no vomitar e reconheceu que usara aquela mesma ttica, vrias vezes, algumas com excelente resultado.
A resposta de Alicia foi acompanhada por uma risada sensual.
	Chuck, voc diz sempre coisas to gentis...
Mais uma vez, Sean tentou no vomitar. E tambm tentou esquecer que Alicia respondia ao outro homem, exatamente do mesmo modo que muitas mulheres tinham respondido a Sean, quando ele dissera o mesmo que Chuck. Mulheres que depois tinham cado diretamente...
	Ser que eu j disse...  Chuck continuou a falar com Alicia, bem na frente de Sean  ...como fica linda de branco?
	Oh, Chuck.
	E como seu po de amoras, bananas e nozes  a coisa mais deliciosa que j comi, em toda minha vida?
	Oh, Chuck...
	Oh, Chuck?  Sean no pde deixar de repetir.
O outro homem, mais alto, maior, mais loiro, e parecendo, mais do que nunca, um deus nrdico, virou-se para Sean, demonstrando, claramente, que no gostara da interrupo do ritual de conquista que estava executando to perfeitamente.
Chuck o fitava, furioso. Olhava para baixo, notou Sean, lembrando que Chuck Nielssen, embora pouco inteligente, era cerca de quinze centmetros mais alto do que ele, e possua msculos dignos de um atleta.
	Monahan  cumprimentou Chuck friamente.  Est com algum problema?
Sean sacudiu a cabea, e forou um sorriso.
	Nenhum. S estava imaginando se voc j teria... Bem...  Baixando um pouco a voz, mas "no impedindo que Alicia o ouvisse, perguntou:  J se livrou daquele problema?
Chuck estreitou os olhos azuis e ergueu as sobrancelhas claras.
	Que problema?
	Voc sabe  continuou Sean.  Aquele pequeno problema do qual todos em Marigold esto falando. Eu mesmo ouvi os boatos e imagino que seja verdade.
Chuck apenas sacudiu a cabea, evidentemente surpreso. Ao ver a expresso no rosto dele, Sean achou que no parecia muito diferente do normal. Afinal, Chuck no parecia sempre um tanto perplexo com o que acontecia a sua volta?
Sean fingiu estar pouco  vontade.
	Bem, Chuck, talvez eu no devesse ter falado nisso, mas estava preocupado com voc. Sei que penicilina costuma resolver o problema em pouco tempo, mas...  Ele deu de ombros.
 Afinal, o que  uma pequena gonorria entre amigos, no  mesmo? Acho que  o que chamam de doena social.
Chuck abriu a boca, to surpreso e ofendido, que mal conseguiu falar. Por fim, comeou.
	Gono...  Mas calou-se. No porque no soubesse pronunciar a palavra, como Sean gostaria de pensar, mas porque agarrou Sean pela camisa, empurrando-o contra a geladeira de doces.
	Do que est falando?  perguntou Chuck furioso.
	Chuck, por favor!  gritou Alicia, estendendo as duas mos e segurando o enorme bceps do homem.
No devia acontecer isso, pensou Sean, irritado. No queria que ela tocasse o sujeito. Pelo contrrio. Queria que se afastasse dele horrorizada. S que no estava funcionando assim.
Mas, no instante em que as mos de Alicia tocaram o brao forte, Chuck soltou-o. Os dois homens fitaram-se com raiva por alguns minutos, e ento Sean olhou para Alicia. Em vez de parecer preocupada com a segurana dele, colocara as duas mos nos quadris, lindos, alis, e olhava para ele com expresso furiosa. Para ele que era vtima naquela situao! Que acabava de ser agredido!
	Hei, no fique brava comigo. Sou a vtima nessa confuso!
	 mesmo?  retrucou ela, em um tom firme.
	Como pode perguntar?  claro que sou!  respondeu, fingindo indignao.
Mas em vez de responder, Alicia virou-se para Chuck e perguntou delicadamente.
	O que posso fazer por voc?
Chuck olhou-a por alguns instantes, lanou a Sean um sorriso triunfante e respondeu em um tom sensual.
	Adoro seus biscoitos, Alicia.  E em seguida continuou, pedindo uma lista de guloseimas que, pelo jeito, costumava comprar sempre. Alicia atendeu-o com rapidez e cortesia. Por fim, ofereceu-lhe um biscoito especial de chocolate, com uma cobertura extra, para compensar o incidente desagradvel e incomum que acontecera em seu estabelecimento, conforme se desculpou.
Quando o painel, afinal, mostrou o nmero sessenta e oito, Sean estava impaciente, Alicia parecia cansada, e o adolescente, bem na frente dele, levara a ltima torta de limo, que Sean estava querendo desde que Chuck o empurrara contra a geladeira.
	O que deseja?
A voz no era de Alicia, mas de uma das adolescentes que trabalhava com ela. Estava quase dizendo exatamente o que desejava da patroa dela, quando lembrou que a garota era menor, e poderia ter problemas se fosse to explcito.
Ento, apenas disse, em um tom contido.
	Quero duas baguetes de queijo e um po de sete gros, com cebola.
	Quer fatiado, ou no?
O que Sean realmente queria, a garota jamais poderia imaginar. Nem devia, enquanto fosse menor de idade.
	Sim. Por que nao?  resmungou irritado.
O olhar dele seguia Alicia, e no pde deixar de notar que estava de costas para ele.
A ltima coisa que Alicia precisava em um sbado de manh, era ter Sean Monahan parado do outro lado do balco, com aquele jeito to... to lindo, charmoso e irresistvel. Como sempre.
Tinha feito de tudo para prestar ateno ao trabalho, mas cada vez que se virava, via-se procurando-o no meio dos clientes, tentando v-lo. E cada vez que os olhares se encontravam, via algo ardente nos olhos dele, que realmente a perturbava mais do que gostaria e que elevava a temperatura de seu corpo a nveis perigosamente altos.
Dessa vez, seria um longo ms lunar, ainda restavam trs semanas.
A convico de que fora um erro concordar em namor-lo s aumentava mais e mais. Por volta das onze e meia, quando percebera que ainda estava na loja, depois de tomar a quinta xcara de caf, e comer a quarta baguete de queijo, no tinha mais dvidas. Sabia que as mini-baguetes eram deliciosas, mas ainda assim, o entusiasmo de Sean parecia excessivo. Especialmente porque a maioria dos clientes j fora embora, e a loja estava quase vazia.
Ela respirou fundo, sabendo que a calmaria era temporria. Logo depois do almoo, o movimento aumentava de
novo. Assim, como de hbito, decidiu cuidar da papelada que estava pendente no escritrio.
Tinha acabado de se virar naquela direo, quando ouviu Sean chamar seu nome, e foi forada a olhar para ele.
	Sim?  perguntou, tentando no notar como estava atraente na cala jeans surrada e camiseta preta, grudada no corpo.
Na verdade, estava grudada demais, pensou Alicia, notando que a malha delineava cada msculo do trax forte. E a cala tambm era justa demais, revelando as coxas fortes. Como ele podia sair em pblico daquele jeito? Ser que no tinha espelho?
Ele parou do outro lado do balco, bem em frente a ela, e sorriu.
	Parece que o movimento acabou  disse ele, com um gesto desnecessrio na direo da loja vazia.
	Geralmente  assim, neste horrio. Mas logo depois do almoo, recomea.
	Ento pode parar um pouco?  perguntou ele esperanoso.
	Na verdade, costumo aproveitar esse tempo para arrumar documentos e organizar as contas  disse ela relutante.
Ele franziu a testa e insistiu, em um tom suave.
	Muito trabalho e nenhum divertimento, Alicia...  Ele no completou a frase, nem era preciso.
Ela no sabia por qu, j que tinha mesmo uma poro de coisas para fazer, mas viu-se respondendo depressa.
	Est bem. Acho que no h problema em fazer uma pausa no trabalho.
	Tambm precisa comer alguma coisa  lembrou ele, com um sorriso fascinante.
S ao ouvi-lo falar, Alicia lembrou de como estava com fome. Era estranho, mas estar cercada de guloseimas o dia todo, acabava tirando o apetite, e em geral, ficava to ocupada que nem se lembrava de comer. E agora, ao pensar em comida, seu estmago comeou a roncar. Ou talvez fosse por causa das roupas apertadas de Sean.  claro que as roupas dele tambm podiam ser responsveis por tanta fome...
	Acho que seria bom comer... alguma coisa  disse ela, tentando afastar os pensamentos que a perturbavam.
E foi assim que Alicia viu-se dividindo a escrivaninha do escritrio com Sean, para almoar. Isto , parte da escrivaninha, j que a mesa estava coberta de pedidos, faturas e contas a pagar. Era muito bom dividir os pes de trigo com alecrim e laranja com canela, especialmente saborosos naquele dia, com algum como Sean Monahan.
	Sabe...  comeou Sean, dando outra mordida na grossa fatia de po.  No que esteja criticando o estilo vegetariano que mantm na loja, mas poderia fazer alguns pezinhos de presunto, de peru. Talvez uma salada de atum. No faria mal nenhum, no  mesmo?
Alicia sorriu, balanando a cabea.
	No faria mal a mim  concordou.  Mas mataria o porco, o peru e o atum.
Ele fitou-a como se fosse retrucar, mas continuou em silncio.
	No se preocupe  disse ela, sorrindo.  No vou critic-lo por comer carne. Alis, tenho vrios amigos carnvoros.
Ele observou-a em silncio.
Alicia continuou, sorrindo ainda mais.
	Embora deva admitir que  um comportamento bem primitivo.
Por alguma razo, o comentrio dela atraiu-lhe a ateno, porque o azul dos olhos dele pareceu brilhar com maior intensidade.
	Comportamento primitivo?  perguntou ele, continuando a fit-la, pensativo.  Sabe, Alicia,  difcil criticar algo como um comportamento primitivo. Nunca se sabe, at experimentar.
Alis, h muitas pessoas que adoram agir de modo primitivo, de vez em quando.
	 mesmo?  Ela fingiu estar surpresa.  Nem posso imaginar por qu.
Mal acabara de falar e viu-se arrancada da cadeira e colocada sobre a escrivaninha. Enquanto tentava protestar, ele posicionou-se entre as coxas dela, passando os braos  volta da cintura delicada. Ento, enquanto o fitava surpresa, ele inclinou-se e beijou-a intensamente.
Primitivo, sem dvida, Alicia reconheceu, enquanto entregava-se ao beijo. Bem, o que mais poderia fazer? Seu corpo estivera em alerta, desde o momento em que vira Sean na loja, e a sensao de calor e excitao no a haviam abandonado um s momento. Agora, pela primeira vez naquele dia, naquela semana, no ms, Alicia comeava a compreender por que valia a pena estar viva. Era uma sensao de antecipao, de excitao, de vida.
Era exatamente assim que se sentia ao lado de Sean. Viva. Pela primeira vez, em muitos anos. Com um simples olhar, ele despertara sensaes que pareciam adormecidas para sempre. Com um simples toque, pusera fogo em partes dela que nem imaginava poder aquecer. E com um beijo, um nico beijo, tinha feito com que lembrasse de como era ser mulher.
No sabia como, nem por qu, mas havia nele algo que a fazia corresponder intensamente, como jamais acontecera antes. E no era capaz de se conter, do mesmo modo que no podia impedir o sol de nascer, pela manh.
Entregando-se ao beijo, disse a si mesma que era a coisa certa a fazer e que seria por pouco tempo. Logo voltaria ao trabalho. Havia pessoas do outro lado da porta. Destrancada, alis. No havia nenhum risco de as coisas escaparem ao controle. Nenhum...
Os braos que a envolviam moveram-se, mas em vez de solt-la, Sean puxou-a para mais perto, colocando uma das mos nas costas de Alicia, acariciando com a outra o ombro macio, o pescoo e o queixo. Com um leve puxo na trana, obrigou-a a inclinar a cabea mais para trs, fazendo com que abrisse mais a boca. Logo a lngua exigente de Sean penetrava a boca de Alicia, apaixonadamente.
Em um gesto instintivo, Alicia mergulhou os dedos nos cabelos sedosos. Por um breve momento de lucidez, tentou protestar, mas logo se rendeu, gemendo baixinho.
Sean pareceu perceber essa rendio, porque aprofundou ainda mais o beijo, com um grito abafado de puro triunfo.
A mo dele desceu, enquanto continuava a beij-la, chegando ao vale entre os seios macios, acariciando a pele sensvel com a ponta dos dedos.
Era to bom...
E ento, bem devagar, como se quisesse dar-lhe tempo para impedi-lo, desceu ainda mais a mo, colocando-a sobre o seio macio. Ainda mais devagar, esfregou o n dos dedos no mamilo ereto, uma vez, e mais uma, at que Alicia pensou que fosse enlouquecer.
Ela nem percebeu que haviam parado de se beijar, at notar que mal podia respirar. Ou talvez fosse ele quem sentisse dificuldade, imaginou, sentindo a respirao ofegante junto  tmpora. Na verdade, os dois estavam ofegantes.
Lentamente, ela abriu os olhos, e viu que Sean olhava para a mo pousada sobre o seio, com uma expresso incontrolvel de desejo.
	Sean...
Ela no planejara dizer o nome dele, especialmente naquele tom rouco e ansioso. Mas ao faz-lo, ele ergueu o olhar, e o corao de Alicia quase parou, ao ver o que os olhos muito azuis revelavam. Ela ia falar, embora no soubesse ao certo o qu, quando soaram batidas na porta.
	Alicia?  A voz de Tiffany chamava do outro lado da porta.  O movimento est aumentando. Precisamos de voc na loja.
Imediatamente Sean afastou-se, e Alicia pulou da escrivaninha.
	J vou  disse, esperando que a garota no notasse a voz trmula.
No sabia o que dizer a Sean, mas ele no parecia ter problemas, j que depois de respirar fundo, disse simplesmente:
	Viu? Eu disse. No se pode julgar um comportamento primitivo.
E por mais que Alicia desejasse discordar, tinha que admitir que estava certo.

CAPITULO VIII

Sem querer, Sean viu-se obrigado a seguir o plano original, porque aps o breve encontro no escritrio, Alicia manteve-se ocupada e impedida de v-lo, falar com ele ou servi-lo, o que o irritou profundamente. Mesmo depois de ter passado a tarde na padaria e tomado caf suficiente para manter acordada uma pequena cidade, no tivera nem sequer uma oportunidade. Pelo jeito, os fins de semana no eram uma boa ocasio para encontrar Alicia Pulaski.
Sean ajustou o plano de acordo com essa nova informao.
E quando tentou alterar o plano novamente, no dia seguinte, passando na padaria apenas para cumpriment-la, percebeu que, no domingo, o movimento era ainda pior do que no sbado.
Alicia mal teve tempo de acenar para ele, e perguntar o que desejava, seguido do habitual volte breve!
Vou voltar, Alicia, disse a si mesmo. Pode ter certeza.
Ele mal podia acreditar na prpria sorte, ao voltar  padaria na segunda feira de manh, e descobrir que era o nico dia em que estava fechada. Esfregando as mos com satisfao, imaginou que Alicia estaria em casa e, de manh, to cedo, estaria na cama. Especialmente depois de um fim de semana to ocupado.
Muito bem, era na cama que a encontraria, decidiu satisfeito. Aquela cama aconchegante, feminina, perfeita para dois. A cama onde imaginava fazer amor com ela, muitas vezes e de muitas maneiras. Estava certo de que ela estaria l, naquele momento, e ento fez um novo ajuste no plano.
Em quinze minutos estava diante da casa dela, erguendo o punho para bater na porta. No queria tocar a campainha, pois sabia que, to cedo, o rudo podia ser desagradvel.
Naquele horrio, Sean tinha certeza, Alicia estaria na cama, e no queria assust-la com o barulho da campainha. Queria que ela acordasse devagar e, preguiosamente, viesse at a porta com o rosto corado, os olhos sonolentos, vestida apenas com uma camisola fina. Talvez ela dormisse com os cabelos soltos...
Seu irmo, Finn, fantico por trabalho e habituado a levantar bem cedo, costumava aparecer no apartamento de Sean, antes de ir trabalhar, alegando que queria passar algum tempo com o irmo favorito. Sean, no entanto, tinha certeza de que apenas queria acord-lo antes de qualquer ser humano normal. Isto , por volta das onze. Finn adorava fazer de tudo para perturb-lo.
Antes de bater, parou alguns segundos para visualizar como ela estaria, e imaginou os momentos selvagens que teriam. Mas, quando ergueu o punho para finalmente bater na porta, a mo dele apenas tocou o ar, porque a porta se abriu, de repente.
Ali estava Alicia, usando um vestido florido, de saia ampla e tecido leve. E no s no parecia sonolenta, como parecia disposta, cheia de energia, como nenhum ser humano devia estar em uma segunda feira de manh. Praguejou. A nica razo que Sean tinha para acordar to cedo era surpreend-la na cama. Por que ela sempre parecia estar um passo adiante de seus planos?
- Oh!  exclamou ao v-lo, revelando mais do que surpresa. Os lbios cheios formavam um crculo perfeito, e os olhos cor de mbar brilhavam intensamente.  Ol, Sean  disse, por fim.
Ele ficou contente ao perceber que corava ao v-lo, mas decepcionado por no ter conseguido surpreend-la dormindo. Ou melhor, ela acabara por surpreend-lo.
	Bom dia  disse ele, tentando disfarar o desapontamento, ao encontr-la vestida, pronta para sair, e no com a camisola transparente, os cabelos soltos...
	Passei na padaria  explicou, depressa, antes que os pensamentos o perturbassem.  E quando vi que estava fechada, decidi vir at aqui.
	Por qu?
Era uma boa pergunta, pensou Sean. Por que no pensara na resposta, ao modificar o plano?
	Porque...  comeou, tentando pensar depressa.
Ela ergueu as sobrancelhas, como se tentasse encoraj-lo, enquanto Sean lutava para encontrar uma boa explicao.
	Queria convid-la para tomar caf  disse, por fim, considerando a resposta brilhante.
	Obrigada, mas j tomei caf.
Bem, talvez no fosse to brilhante, admitiu Sean, tentando novamente.
	E j que  seu dia de folga, pensei que talvez pudssemos passar o dia juntos.
Ela olhou-o desconfiada.
	Segunda feira  o dia que resolvo todos os assuntos pendentes. Tenho uma poro de coisas para fazer.
	Eu poderia ir com voc  ofereceu ele.
Aquilo pareceu surpreend-la, porque perguntou mais uma vez, diretamente.
	Por qu?
Ele suspirou exasperado.
	Escute, por que preciso de desculpa para ficar ao lado de uma linda garota?
Aquilo pareceu surpreend-la ainda mais, j que nem fez perguntas. Ento, Sean continuou:
	Escute, Alicia, estamos namorando, no ?
Por alguma razo ela pareceu nervosa, e desviou o olhar, mexendo no boto do vestido.
	Apenas por um ms lunar  lembrou desnecessariamente.
Sean tinha muitos planos para eles e nem sequer por um momento acreditou que tudo acabaria em poucas semanas.
	Ento, vamos namorar  disse lentamente.  Vou acompanh-la.
	Vai?  repetiu ela, ainda evitando fit-lo.
	 um sinal dos tempos. As pessoas namoram, enquanto resolvem os assuntos pendentes.
	Oh.  Ela no parecia convencida.
	Ento, vamos  disse ele.  Para onde?
Ela ainda no parecia disposta a aceitar e apenas o fitou curiosa, como se estivesse tentando descobrir o que havia por detrs daquela oferta.
	Se realmente tem assuntos a resolver...  provocou Sean.
	Tenho, sim.
Depois de tanto esforo para convenc-la, Sean no ia desistir. Alicia continuou em silncio por mais alguns minutos e, por fim, deu de ombros.
	Est bem. Vou primeiro  mercearia, para evitar o horrio de movimento. Ento vou ao correio, ao banco,  copiadora, e depois ao atacadista, e...  Ela continuou, enumerando todos os lugares onde precisava ir. Um menos interessante do que o outro, pensou Sean.
	Para mim, est timo  mentiu ele, ficando de lado para deix-la passar. 
Pelas duas semanas seguintes, Sean e Alicia namoraram, indo a todas as festas e eventos sociais importantes da cidade, desde piqueniques at um baile para arrecadar fundos para a nova ala do hospital. Mais uma vez, tinham ido ao drive-in, onde Sean imaginara estar passando um filme ertico, mas o programa era de dois musicais antigos, com Julie Andrews.
E a cada noite que saam, Sean comportava-se como um cavalheiro, ao levar Alicia para casa. Bem, algumas vezes se comportava como um perfeito cavalheiro em chamas, j que os beijos de boa-noite eram cheios de paixo.
Mas isso no era importante. Sean se considerava o homem que conseguira namorar melhor Alicia. Pondo a modstia de lado, o que era muito fcil para ele, Sean reconheceu que era o namorado de Alicia que conseguira melhores resultados no relacionamento, em toda Marigold.
Do modo como as coisas aconteciam, e pela maneira como Alicia correspondia s iniciativas dele, tinha certeza de que seria fcil prolongar o namoro por mais um ms lunar, completando o prazo que estabelecera. Talvez namorassem at por trs meses, se estivesse disposto no final do segundo ms. Teria que esperar para ver.
Vrias noites haviam se sentado na varanda, tomando caf ou um copo de vinho, depois do jantar, apenas abraados, aproveitando a companhia um do outro. E quando chovia, iam para dentro. Com o passar dos dias, os beijos foram ficando cada vez mais ardentes, mas nem ele, nem Alicia, ultrapassaram os limites.
O que era lamentvel.
E assim, estavam namorando havia trs semanas e dois dias, e Sean sentia-se mais frustrado do que jamais imaginara.
O que sentia por Alicia era diferente do que jamais sentira por outra mulher, embora tivesse certeza de que no havia motivos para alarmar-se. Assim, no se importava em pensar que tinham um relacionamento, e convencia-se de que era um relacionamento temporrio.
Estava tudo bem, desde que durasse dois meses lunares. Mais ou menos. Ainda no estabelecera um prazo definitivo, nem sabia se apenas cumpriria o tempo necessrio para ganhar a aposta de Finn. Alicia e ele se davam muito bem, era bom abra-la, beij-la e sentir seu perfume suave.
	Que perfume gostoso  disse ele, com o rosto encostado no pescoo macio.
Estavam parados na porta da frente da casa dela, depois de jantar e danar no Tony Palermo Club, onde Sean ficara surpreso ao ver o irmo, Rory, danando animado com a bibliotecria da cidade, Miriam Thornbury.
Os pensamentos sobre Rory desapareceram ao sentir a mulher sensual em seus braos, e Sean comeou a beijar novamente o pescoo, a orelha delicada, at encontrar a boca macia.
	Voc tambm tem um cheiro gostoso  retrucou Alicia, com a voz rouca e sensual, que ele bem conhecia, e que revelava sua excitao.
Sean lembrou-se de que j se haviam passado trs semanas, e era preciso pensar seriamente na prxima etapa da seduo.
	Alicia...  comeou.
Mas antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, ela soltou-se, dando um passo para trs.
	Por mais que a noite esteja agradvel, tenho de entrar  disse baixinho.
	J?  perguntou Sean. Afinal, ainda estavam em p, e nada de mais acontecera. Pelos planos dele, ainda era cedo demais para terminar a noite.
	Amanh tenho de me levantar mais cedo do que de costume  explicou Alicia.  Vou abrir a padaria sozinha, j que Louis vai a Indianapolis, para um funeral, e as meninas vo fazer uma excurso com o grupo da escola.
	O qu?  Ele no podia acreditar.  Deu folga para todo mundo no mesmo dia?
	Todos tinham compromisso  respondeu ela, dando de ombros.  No vai ser to difcil. Ser tera-feira, e a padaria no estar cheia. Eu mesma posso fazer os pes. Tiffany e Brittany prepararam todos os doces hoje e colocaram na geladeira. Tudo que preciso fazer  coloc-los no forno, logo cedo.
	Ainda assim  um bocado de trabalho  ponderou Sean.
	No vai ser to ruim  assegurou ela.  S haver um pouco mais de trabalho.
	Eu poderia ajud-la  ofereceu-se, surpreendendo a si mesmo. Pensando melhor, imaginou que poderia at ser divertido. E Alicia estaria l. Precisava de razo melhor para levantar cedo?
Ela tambm pareceu surpresa com a oferta.
	Voc iria mesmo?  perguntou, sorrindo.
	 claro  confirmou ele.  Essa  a vantagem de ser autnomo. Posso tirar o dia de folga, sempre que quiser. No estou trabalhando em nenhum programa urgente, no momento. Vai ser bom variar um pouco.
Ela sorriu, feliz com  oferta de ajuda, e Sean desconfiou de que no era apenas por causa do trabalho. Era evidente que estava feliz por t-lo como companhia, o dia todo.
	Obrigada  disse, dando um beijo suave no rosto dele.  Ento, nos veremos pela manh.
	Humm  murmurou ele, puxando-a para mais perto, e passando os dois braos em volta da cintura fina.  Pela manh? Devo encontr-la na padaria, ou prefere que fique por aqui, para no perder a hora?
Imediatamente ele soube que dissera as palavras erradas, pois Alicia enrijeceu-se por um momento, soltando-se dos braos dele, e destrancando a porta da frente rapidamente.
Sean deixou-a ir, porque conhecia bem as mulheres. Podiam mostrar-se indignadas de repente e no queria v-la assim.
	Alicia  murmurou.  Sinto muito. S estava brincando.
	 claro que estava  retrucou ela, um tanto brusca, abrindo a porta e dando um passo, como se fosse entrar.
Sean segurou-a novamente pela cintura, e obrigou-a a ficar parada.
	Vamos, Alicia  disse baixinho.  No deixe a noite acabar assim.
	No sei do que est falando  respondeu ela, friamente, evitando fit-lo.
Sean no se arriscou forando um abrao, mas tambm no a soltou.
	Escute, u sinto muito. Mas tem de admitir que h algo intenso entre ns, e no comeou hoje. Muitas pessoas j teriam ido adiante, depois de tantos dias.
As faces de Alicia tornaram-se rubras, indicando que ela sabia muito bem do que ele falava. Mas o rosto se manteve impassvel, com uma expresso sria.
	Acho que est imaginando coisas  disse suavemente.
	No acho. Jamais ir me convencer de que no quer dar o prximo passo, tanto quanto eu.
E quando ela no disse nada, soltou-a, no sem antes beij-la levemente no rosto.
	Logo, Alicia  disse, virando-se para os degraus, e certo de que ela entendia muito bem do que falava. Apenas para garantir, virou-se, repetindo por sobre o ombro.
	Logo.
CAPITULO IX

Sean ainda estava meio dormindo, ao entrar, literalmente cambaleando, na padaria de Alicia, s dez para as seis da manh. Dez para as seis, resmungou, consigo mesmo. Isso  o mesmo que cinco e cinquenta. Ele olhou para as luzes fluorescentes no teto, contendo a irritao. No conseguia se lembrar da ltima vez em que acordara naquela hora.
Espere. Podia, sim. Fora naquele dia em que viera  padaria, conhecer Alicia formalmente, no sbado pela manh, quando estabelecera o plano de conquista. O plano dele era conseguir namor-la por dois meses lunares, e tinha chegado cedo, imaginando que a surpreenderia um tanto sonolenta e indefesa.
Ao lembrar, Sean sorriu satisfeito. Naquela manh, realmente conseguira peg-la desprevenida. S que ela tambm conseguira surpreend-lo, o que no fazia parte do plano.
Mesmo assim, tudo corria bem, considerou Sean. E a essa altura j deveriam estar na etapa M do plano, e quando chegassem  S, de Seduo, decidiu ele, poderia finalmente agir. No momento, ao ver Alicia toda vestida de branco, completa-mente acordada, suspirou. Como podia parecer to bem-dis-posta e animada naquele horrio?
E o mais surpreendente, ela at cantarolava, enquanto andava na cozinha, de um lado para o outro. Sean estava encantado. Era incrvel.
Ento, ele notou o enorme copo de caf sobre o balco, perto de onde ela trabalhava e sorriu. Alicia Pulaski tambm precisava de caf para acordar de manh. De algum modo, aquilo o deixou muito satisfeito.
E ento, ficou ainda mais satisfeito, ao ver que Alicia se inclinava sobre o balco, para pegar alguma coisa, e a saia branca esticava-se sobre as ndegas firmes, proporcionando uma viso particularmente deliciosa.
Com certeza, aquela viso era responsvel pelo intenso calor que o envolvera de repente. E quando ela se endireitou novamente, percebeu que no era apenas calor. Na verdade, parecia estar pegando fogo.
S ento percebeu que, uma das razes podia ser o fato de que todos os fornos estavam ligados. A temperatura na cozinha estava altssima. Mas ao olhar como a blusa de Alicia delineava os seios firmes, imaginou que os fornos no eram os nicos responsveis por tanto calor.
Procurando no pensar nos seios de Alicia, Sean deu um passo na direo dela, ainda sonolento. Caf, lembrou-se, de repente. O que realmente precisava naquele momento, era de uma enorme xcara de caf para despertar seu crebro, e acalmar seu corpo.
Como Alicia, Sean tambm vestira roupas brancas, j que notara os uniformes que o pessoal usava na padaria. Escolhera uma velha cala branca, que usava com uma camiseta de gola V, e tnis. Mas pretendia se desfazer de parte do uniforme bem depressa. No porque pretendesse passar  fase S do plano, mas porque o calor era mesmo insuportvel. E em vez do caf fumegante, que desejara minutos atrs, agora sonhava com uma cerveja, muito gelada.
Pelo jeito, seria uma longa manh.
	Bom dia  disse Alicia, com um sorriso, ao v-lo aproximar-se.
	Sim  disse Sean.  Para alguns, deve ser. Para mim, ainda  boa noite.
Ela sorriu e fez um gesto na direo da xcara de caf sobre o balco.
	Caf?
	, sim  concordou Sean.
Ela riu.
	Eu sei. S perguntei se quer um.
Sean tambm riu.
	Ah, sim. Quero. Obrigado.
Naquele momento ainda no conseguia conversar, mas ao menos conseguia lembrar qual era sua lngua nativa. Ao pensar na palavra lngua, imediatamente a associou com boca e beijos. Carinhos no faziam parte daquele estgio do plano para aquele dia. Mas, afinal, no havia mudado o plano outras vezes?
Era surpreendente que seu crebro estivesse funcionando to bem, muito antes da primeira xcara de caf. Alis todo seu corpo estava desperto e pronto para a ao, desde que vira Alicia.
	Caf  disse, depressa, satisfeito consigo mesmo por conseguir pensar em outra coisa, alm de seduzir Alicia.
Ento, ela sorriu de novo, e a ideia da seduo voltou com fora total.
	J vou pegar  disse ela.
Desde chegara  padaria, Sean no conseguia desviar o olhar de Alicia. Depois de uma noite cheia de sonhos erticos, era difcil concentrar-se em outra coisa.
Felizmente, ela atravessou a cozinha e pegou um copo grande de papelo, comeando a ench-lo na mquina de caf expresso. Sean observava cada movimento, enquanto ela continuava cantarolando. Um aroma de canela e massa fresca enchia a cozinha, misturando-se ao cheiro de caf e acar mascavo.
Pelo jeito, seus sentidos estavam perfeitamente despertos. Isto , quatro deles, porque, por enquanto, ainda no testara o tato, embora tivesse vrias ideias de como faz-lo. Quando Alicia colocou o copo fumegante em sua frente, ele quase queimou a mo e no teve dvidas de que o sentido do tato estava perfeito.
Sean rapidamente colocou o copo sobre o balco, e enquanto esperava que esfriasse um pouco, puxou a camiseta de algodo branco, agora grudada  pele.
	Vai ser assim o dia todo?  perguntou.
Alicia olhou-o, surpresa com a pergunta.
	Assim como?
Ele passou a mo pela testa suada.
	Quente.
	Vai, sim. Pelo menos, enquanto estivermos assando os pes. Mas no se preocupe. Logo vai se acostumar.
Sean duvidava. Sem pensar, puxou a barra da camiseta, comeando a tir-la pela cabea. Mas ao ver a expresso de Alicia, parou. Ela parecia horrorizada. Hesitando, ele arrumou a camiseta.
	O que foi? H alguma lei que proba o trabalho sem camisa?
	No...  Ela sacudiu a cabea.  No  isso.
	Ento, qual  o problema?
Ela no disse nada, mas continuou a fit-lo, parecendo apavorada.
	Alicia.
	Nada  disse ela, um tanto rpido demais.  E que... No h nada errado. S...
	O qu?
Ela apenas sacudiu a cabea e repetiu:
	No  nada. Louis trabalha sem camisa, de vez em quando, e nunca ningum reclamou.
E claro, pensou Alicia, vendo Sean arrancar a camisa e atir-la em um canto do balco, que era porque Louis era to redondo quanto, um dos famosos bolinhos que fazia. E bem diferente do deus grego que Sean parecia ao tirar a camiseta.
Oh, a manh ia ser longa demais...
	Talvez deva vestir um avental  sugeriu Alicia, em um esforo para manter a sanidade. Se tinha de trabalhar to perto dele, era melhor que no estivesse seminu, ou no conseguiria manter o controle das prprias aes.  Ou vai acabar se sujando. As coisas por aqui acabam ficando uma baguna.
Especialmente quando est to quente, e h algum to sexy e prximo. Ela no conseguia desviar o olhar dos msculos firmes, da pele bronzeada, enquanto tentava achar um avental sob o balco. E quando os dedos encontraram o tecido de algodo, ainda no conseguira afastar os olhos do bceps, trceps, oh, bom Deus, que homem...
	Obrigado  disse ele, pegando o avental.
Por um momento, Alicia imaginou que houvesse falado em voz alta, e que ele estava agradecendo, mas viu que colocava o avental e o amarrava nas costas.
	Por nada  disse, em um fio de voz.
Mas ainda no conseguia afastar o olhar das costas nuas, observando o movimento dos msculos, cada vez que ele se mexia. Sentia a boca seca, ao lembrar-se de quantas vezes suas mos haviam deslizado naquelas costas, enquanto estava vestido. Como conseguira negar a si mesma um contato mais ntimo? Ele era to bonito, fantstico. A pele nua devia ser quente, firme, macia como cetim.
Estava quase cedendo  curiosidade de toc-lo, quando a campainha do forno tocou, trazendo-a de volta  realidade. Era preciso comear a assar o po. A loja abriria dentro de uma hora, e ela e Sean tinham muito trabalho a fazer. A campainha indicava que os pezinhos de amndoas estavam prontos, e a massa de alho e alecrim pronta para ser sovada.
Ainda bem que era tera-feira, pensou aliviada, ou jamais terminariam tudo em tempo. Se fosse um final de semana, no conseguiriam aprontar tudo que a loja vendia. Mas, no incio da semana, o movimento era mais para o caf, e algum lanche rpido. E tudo estava pronto, na geladeira, faltando apenas assar.
O que Sean e ela precisavam preparar, eram os pes que os clientes costumavam comprar para o jantar, e isso significava bastante trabalho. Trabalho, lembrou a si mesma, era preciso trabalhar e esquecer o corpo de Sean.
Ela conseguiu fixar-se nas tarefas por cerca de meia hora, andando de um lado para o outro, tirando pes do forno, colocando-os na loja. Sean ficou encarregado de sovar as massas, e parecia estar gostando da tarefa. Era bom naquilo, admitiu Alicia, observando-o. Com as duas mos, amassava e dobrava a massa, vrias vezes.
E cada vez que se mexia, os msculos dos braos e trax flexionavam, relaxavam, tornavam a flexionar, em um bale que Alicia observava fascinada.
Ao voltar da loja, para onde levara mais uma bandeja, parou para observar os movimentos, incapaz de mover-se.
Os cabelos escuros caam sobre a testa mida, o rosto dele estava corado, e o avental, aberto sobre o peito nu. Ele estava atento ao trabalho.
A cozinha estava muito quente, e a boca de Alicia, seca. Ele era to bonito e sensual. Uma fome insacivel surgiu dentro dela, enquanto o corao disparava e, sem pensar, viu-se ao lado dele, com a mo estendida para tocar o ombro nu.
Apenas queria toc-lo, ver se a pele era to macia quanto imaginava, se os msculos eram to firmes como pareciam. E ento, deslizou a ponta dos dedos pelo brao de Sean, e soube que a peie era mesmo macia, e que os msculos eram mesmo firmes, e que ele era quente, forte e msculo.
No momento em que ela o tocou, Sean ficou imvel e virou-se para fit-la. Os joelhos de Alicia fraquejaram diante do brilho intenso que havia nos olhos azuis. Havia neles a mesma nsia, a mesma fome que reconhecia dentro dela. E de repente, toc-lo apenas no era suficiente. Queria sentir o gosto dele e inclinou a cabea, tocando com os lbios entreabertos o ombro forte.
No tinha certeza, mas parecia ter ouvido Sean gemer, um som rouco, primitivo, misturado  respirao ofegante. Mas ele no se mexeu, virando apenas a cabea para observ-la. E depois daquele toque, Alicia percebeu que no poderia mais resistir. Deslizando os lbios pelo ombro, chegou ao pescoo. Com a ponta da lngua, saboreou o gosto de sal, canela e homem. Uma mistura intoxicante que parecia drog-la, deixando-a fora de controle.
Ainda assim, Sean continuava imvel, embora tivesse a respirao ofegante e um brilho intenso no olhar. Alicia tinha medo de fit-lo, pois se visse no rosto dele, o mesmo desejo que a consumia, acabariam fazendo amor ali, na cozinha da padaria.
Assim, continuou deslizando os lbios pela pele quente, at encontrar o tecido do avental e deixar escapar um gemido de frustrao. Com dedos nervosos, tentou afast-lo e, colocando uma das mos atrs de Sean, procurou desfazer o n que o prendia. Isso, por fim, fez Sean mover-se com a velocidade da luz, arrancando o avental pela cabea.
E ento o trax musculoso ficou nu, quente e suado, bem  frente de Alicia. Ela baixou a cabea, tocando com os lbios entreabertos a pele macia. Mas, dessa vez, Sean no ficou imvel. Com gestos rpidos arrancou o leno da cabea dela, puxando a trana e comeando a enrol-la na mo, at chegar  nuca de Alicia. Ento, deu um puxo firme, porm gentil, obrigando-a a inclinar a cabea para trs. Sean cobriu a boca macia com a sua, em um gesto de triunfo.
O beijo, dessa vez, foi bem diferente dos que haviam trocado at ento. Era exigente, explosivo e perigoso, e a lngua faminta de Sean explorava a boca de Alicia sem limites. Ela tambm o desejava muito e sabia que no conseguiriam parar. No aquele dia. Talvez nunca mais.
Alicia no questionou essa reao nem tentou evit-la, porque tudo que estava acontecendo entre eles parecia predestinado, como se alguma fora superior, que nenhum dos dois compreendia, os houvesse colocado juntos. Ela correspondeu ao beijo, demonstrando, sem palavras, tudo o que queria.
	Precisamos sair daqui  murmurou Sean, em um tom rouco, afastando os lbios dos dela apenas alguns centmetros.
 Agora, Alicia. Quero fazer amor com voc, agora. Quero estar dentro de voc, agora. Diga que  isso que tambm quer.
	Sim, eu quero...  murmurou ela.
Mas no conseguiu continuar, pois Sean beijou-a de novo. Por longos momentos trocaram beijos cada vez mais apaixonados, enquanto uma das mos dele segurava a trana, e a outra percorria o corpo macio, acariciando, provocando. Ela sentia as carcias nos ombros, nas costas, nos seios, nas coxas. E tambm o tocava, deslizando as mos pelas costas nuas, pelo peito forte, descendo pelo abdmen. Alicia no hesitou em tocar a parte do corpo de Sean que mais queria explorar.
Ele ficou imvel quando ela o tocou, pressionando a rigidez sob o tecido da cala, acariciando, esfregando a mo de um lado para o outro. Agora a respirao dele era ofegante e curta, como se mal pudesse respirar, e a mo dele segurou-a pelo pulso, impedindo que continuasse.
	Meu apartamento fica na esquina  disse, sem flego.  Ou vamos para l ou faremos amor aqui mesmo, e no sei se h alguma lei contra isso. Estou falando srio, Alicia. Escolha.
O que ele sugeria era loucura, pensou Alicia. Estavam no meio do trabalho, e em meia hora os clientes comeariam a chegar. Havia muitos pes no forno, massas crescendo. Por um instante pensou no prejuzo que teria se largasse tudo.
Ento, pensou em quanto perderia se no o fizesse.
	Ajude-me a desligar tudo  pediu.  Podemos voltar depois, e arrumar a cozinha.
Por um momento, ele apenas a fitou, os olhos azuis cheios de desejo, as pupilas dilatadas pela paixo. Ento, lentamente, falou em um tom rouco.
 Pegue suas coisas, e no esquea nada de que possa precisar, porque no vamos voltar aqui hoje, Alicia. Eu prometo.
Ela mal conseguiu respirar, diante da inteno que ele expressava claramente. Mas assentiu, concordando. Ento, Sean soltou-a, pegando a camiseta que tirara. Ela viu-o desligar os fornos com rapidez surpreendente, com gestos precisos.
E lembrou que apenas uma nica vez, no ltimo inverno, fechara a padaria, quando todos os empregados, e ela mesma, tinham contrado a gripe que contaminara metade da populao de Marigold. Ainda tinha a placa que usara naquele dia, esquecida no fundo de uma gaveta.
Enquanto Sean acabava de fechar a cozinha, foi procur-la.
Fechada por motivo de doena, dizia a placa de papelo que colocou na vitrine, enquanto acendia as luzes externas. E ao olhar para Sean, pensou que no era exatamente uma mentira. Porque realmente estava fechando a loja por motivo de doena, e suspeitava que, para ela, no havia cura.
Alicia percebeu que estava doente de amor por Sean Monahan.

CAPITULO X

Eles mal conseguiram chegar ao apartamento de Sean, pois antes pararam no meio da rua Elliot e quase fizeram amor ali mesmo. Felizmente, ele morava a poucos minutos da padaria, e logo abria a porta da frente. Embora o dia estivesse clareando, dentro do apartamento estava escuro. Alicia pde ver apenas alguns detalhes do lugar, percebendo que era totalmente masculino. Grande, com moblia em linhas retas, tinha poucos objetos, como se Sean quisesse ter a sua volta apenas o necessrio.
Sean nem se deu ao trabalho de acender as luzes.
Ele tambm no se importou com preliminares, e Alicia gostou disso. Sean apenas a tomou nos braos, sem dizer uma palavra, e comeou a despi-la, desabotoando a blusa, enquanto acariciava as costas nuas com a outra mo. Ela puxou a camiseta e abriu a cala de Sean, enquanto ele quase arrancava a blusa e soltava a saia, que desceu para os tornozelos de Alicia.
Quase no conseguiram chegar ao quarto, deixando as roupas ntimas espalhadas pelo caminho. E quando Sean colocou Alicia sobre a cama desarrumada, estava nua, assim como ele. Mas em vez de deitar-se ao lado dela, ajoelhou-se no cho, a sua frente, colocou as mos entre as coxas, obrigando-a a abri-las, e mergulhou a cabea entre as pernas de Alicia. Ela s percebeu o que pretendia, ao sentir a lngua de Sean tocando seu ponto mais sensvel.
 Sean...  murmurou. No estava preparada para... Ele no deveria... Jamais algum...  Oh, Sean...
No pde continuar, porque ele a provocou, lambendo, tocando, antes de deslizar para bem fundo, na fenda molhada.
A sensao levou Alicia a um lugar que jamais sonhara, e apenas pde agarrar com fora os lenis, entregando-se totalmente.
Mas Sean no tinha pressa. Bem devagar, continuava beijando-a, como se sabore-la fosse um prazer infinito. Nenhum homem dera a Alicia esse prazer, e tanta intimidade roubou-lhe as palavras e os pensamentos. Nada existia, alm daquela sen-. saco enlouquecedora.
Ela nunca mais seria a mesma.
E de repente, sentiu o corpo quente, forte de Sean a seu lado. Ele virou-a de lado, e deitou-se atrs dela, colocando uma das mos aberta sobre o ventre, e a outra em um dos seios. Prendendo o mamilo entre os dedos, acariciou-o, e baixando a cabea, beijou-a no pescoo. Ento, sem avisar, penetrou-a, uma e outra vez, mais e mais fundo, com movimentos rpidos, exigentes, nem um pouco gentis.
Alicia imediatamente acompanhou o ritmo dele, movendo os quadris para trs, quando ele os impulsionava para a frente. Ele colocara um preservativo, em algum momento, e o toque do membro rijo nas partes, ainda mais sensveis, depois do que ele fizera antes, era enlouquecedor. E ento, quando algo incontrolvel parecia explodir dentro dela, Sean ficou rgido, e investiu mais uma vez, ainda mais fundo. Juntos, gritaram a paixo que os envolvia, em um clmax de prazer e delrio.
Assim que Alicia relaxou, ele virou-a e beijou-a intensamente. Ento, com evidente relutncia, afastou-se um pouco.
 Volto j  disse baixinho, ainda ofegante.  E depois... Alicia, vamos conversar.
Ela assentiu fracamente, desejando que voltasse depressa realmente. No porque quisesse falar com ele, no tinha ideia do que dizer, depois do que haviam compartilhado. Mas queria senti-lo perto novamente. Precisava senti-lo perto. No entendia o que havia acontecido, mas ainda no queria que acabasse. Era fsico, apenas fsico, disse a si mesma. Queria o corpo dele sobre o dela, a boca na sua, duas pessoas unidas como uma. Instintivamente, soube que era mais do que isso. Muito mais.
Nunca, nunca mais, poderia ser a mesma.
Quando Sean voltou para a cama, um filete de luz entrava pela janela do quarto. Acostumado  semi-escurido, podia ver a forma de Alicia sob as cobertas. Estava de costas, em um dos lados da cama, olhando para o teto, e ele no pde deixar de imaginar novas delcias.
Ser que estava relembrando o modo como os dois haviam explodido em chamas? Ser que sentia o mesmo que ele? Ser que, tambm para ela, fora uma primeira vez? No a primeira vez que faziam amor,  claro. Era evidente que os dois sabiam muito bem o que estavam fazendo. Mas a primeira vez que tinha sido to perfeito e incrvel?
Ele nem tinha ideia do que fazer agora.
Nunca imaginara que fazer amor com Alicia, ou com qualquer mulher, pudesse ser assim. E nem entendia muito bem o que acontecera antes, na padaria. Em um minuto ela estava na cozinha, andando de um lado para o outro e, no seguinte, estava ao lado dele, acariciando-o.
Ele ficara surpreso com o contato, mas ao ver o brilho que havia nos olhos dela, esquecera tudo. Jamais vira uma mulher revelar tanto desejo e imediatamente reagira do mesmo modo.
E quando ela tocara seu ombro com os lbios...
Sean estremeceu ao lembrar. Sem querer, fechou os olhos, entreabriu os lbios, e reviu a cena. Ainda agora, ao pensar no que acontecera, a mesma nsia parecia domin-lo.
Ele abriu os olhos e, com esforo, deu um passo na direo da cama. Alicia virou-se ao perceber o movimento, e ele parou, incerto quanto  reao dela. Por um momento, apenas fitou-o, em silncio, como se estivesse to hesitante quanto ele, mas logo estendeu a mo. Rapidamente, antes que ela pudesse mudar de ideia, cobriu a distncia que os separava, deitando-se e puxando-a para si. Passando os braos  volta dela, deitou-a contra o peito.
Ele nem soltara a trana, pensou, com um sorriso. Estivera to ansioso por penetr-la, que nem sequer tivera tempo de explorar cada minuto, como fazia com uma amante. E ela no tentara cont-lo, porque certamente estava to ansiosa e excitada quanto ele. Da prxima vez, iria mais devagar. Da prxima vez, seria mais terno.
Da prxima vez! No! J estava pensando na prxima, mas tinha medo que no houvesse novos encontros.
Ele sentiu-a estremecer e abraou-a mais forte, puxando o lenol sobre os corpos nus.
	Voc est bem?  perguntou baixinho.
	Sim, e voc?
Essa era uma pergunta que no poderia responder naquele momento, porque suspeitava de que no estava bem. Nem um pouco, alis. E provavelmente no ficaria bem por muito tempo. Nunca experimentara o que havia acontecido entre eles. No importava quanto desejara uma mulher, jamais perdera o controle daquele modo. O sexo tinha sido bom, no passado. s vezes, fantstico. Mas nunca como fora com Alicia. Nunca.
E ela era uma mulher que no namorava mais do que quatro semanas...
	Sean, sinto muito, eu...
Ele impediu-a de continuar, colocando um dedo sobre os lbios macios. No sabia por que estava se desculpando, mas no se importava. Nenhum dos dois precisava se arrepender do que tinha feito.
	No se desculpe  disse, beijando-a de leve.  No consigo imaginar nada pelo que possa se desculpar.
Ela colocou a mo no peito de Sean, bem sobre o corao, que batia forte.
	Mas eu realmente sinto muito...  comeou ela baixinho, traando crculos na pele bronzeada, com a ponta do dedo.
	O qu?  perguntou Sean, contente consigo mesmo por conseguir disfarar a preocupao.
	Voc no... Isto , eu no fiz por voc...
Ele sorriu. Ento era s isso?
	Acredite, Alicia. Tive tudo que desejava. Tudo.
Os dedos dela pararam de acarici-lo de repente.
	Oh...  O som revelava uma nota de mgoa.
	No entenda mal  explicou ele depressa.  No quis dizer que sexo era s o que eu queria de voc.
Ela hesitou por um instante, antes de perguntar.
	E o que queria de mim?
Ela fizera a pergunta, e agora ele teria de responder, pensou Sean, sem saber o que dizer.
	Quero fazer amor com voc, de novo. E dessa vez  acrescentou, antes que ela pudesse protestar , quero ir devagar.
	Mas...
	Bem devagar  disse Sean, impedindo que continuasse a falar. Pegando a ponta da trana, soltou-a, comeando a desmanch-la, deixando livres os cabelos sedosos.  E quero comear agora. 
Assim que chegou em casa, naquela noite, e viu-se sozinha, longe de Sean Monahan, Alicia comeou a se arrepender pelo modo como passara o dia. Embora houvesse sido incrvel, maravilhoso, fantstico, sabia que havia muito mais em jogo do que passar bons momentos com ele. O que haviam compartilhado era especial e superara qualquer experincia que tivera antes, fosse fsica, emocional ou espiritual. Esse era um grande problema. Alicia entendia muito bem o que acontecera. Tinha se apaixonado por Sean Monahan.
Estava mesmo apaixonada. Completamente.
No sabia como ou quando acontecera, mas em algum momento das ltimas trs semanas, Sean passara a ser a coisa mais importante na vida dela. No sabia se tinha sido quando o conhecera, ou depois, aos poucos, mas o amava. Tinha certeza. E o plano do ms lunar, que imaginara ser perfeito, sem falhas, acabara fracassando. Nunca imaginara que algum como Sean pudesse aparecer em sua vida.
Nunca pensara em se apaixonar desse modo.
O que sentia por Sean era especial e completamente diferente do que sentira pelos ex-noivos, que agora pareciam sem importncia. E quase casara com eles, lembrou-se, horrorizada. Tinha pensado em passar a vida ao lado de homens que nem sequer amava de verdade.
E pior, agora que sabia o que era amar, havia se apaixonado por algum que jamais retribuiria tal sentimento. Porque embora Sean Monahan fosse um companheiro inteligente, divertido e bonito, no era homem de ficar com uma nica mulher para o resto da vida.
E tambm no ficaria com ela.
O que devia fazer?
Ela encostou-se na porta da frente, ouvindo o motor do carro de Sean que se afastava. Enterrando o rosto nas mos, sentiu-se miservel, completamente perdida. Do lado de fora, a lua estava linda, e as estrelas brilhavam. Era uma noite perfeita para os amantes. Mas ela beijara Sean na varanda, despedindo-se com uma vaga resposta de que poderiam encontrar-se no dia seguinte, e correra para dentro de casa, fechando a porta.
Durante o dia todo, agira como se fosse outra pessoa. Havia fechado a padaria de maneira completamente irresponsvel, e agora teria de arcar com um prejuzo considervel. Mas o pior era ter cedido ao desejo intenso que a consumia, sem pensar duas vezes. Sim, ela queria Sean como jamais quisera algum em toda vida. Mesmo assim, era uma mulher adulta e deveria saber controlar seus impulsos e conduzir a prpria vida. Tinha sido tola, agindo por instinto, e agora teria de pagar por esse erro.
Antes de traz-la para casa, Sean queria ir com ela at a padaria para ajudar na limpeza, mas Alicia lhe garantira que cuidaria de tudo, junto com os empregados, na manh seguinte. Teria de inventar uma boa desculpa para dar ao pessoal, dizendo que comeara a sentir algo estranho, diferente, no meio da manh, e que precisara largar tudo e ir para a cama.
Alicia disse a si mesma que no era uma completa mentira, afinal,  que tinha sentido era mesmo diferente e misterioso. E realmente passara o dia na cama, pensou, sentindo um calor intenso envolv-la, ao lembrar-se de Sean. Nunca experimentara algo to intenso e arrebatador, como o que haviam desfrutado juntos. No fazia ideia de como seu corpo podia corresponder to intensamente, nem das emoes que era capaz de sentir.
No conseguia acreditar que, mais uma vez, tinha se envolvido com algum que no pretendia dividir a vida com ela. Sean Monahan era famoso em Marigold pela variedade de namoradas, pelas inmeras conquistas, pelo hbito de no levar relacionamento algum a srio. Essa era uma das razes pelas quais concordara em sair com ele. Tinha certeza de que jamais se apaixonaria por um homem assim, e que ele tambm no se apaixonaria por ela.
Mas acontecera.
Errar uma vez, podia ser azar. Errar a segunda, falta de ateno. Mas errar trs vezes...
Deixando cair os braos, respirou fundo e endireitou-se.
No iria deixar-se abater, prometeu a si mesma. J havia se apaixonado antes e conseguira superar a frustrao. Poderia lidar com aquela situao. O ms lunar estava quase no fim, era preciso terminar tudo com Sean, antes que as coisas ficassem piores.
Porm no conseguia deixar de pensar no que havia acontecido, e como tinha ido alm, muito alm, do que planejara.
Erguendo o queixo, decidiu que s havia uma coisa a fazer. Olhar para o futuro, e seguir em frente.
O futuro imediato, pelo menos, emendou, desanimada. Para comear, podia ir at a padaria arrumar tudo, antes que o pessoal chegasse pela manh. De qualquer modo, sabia que no conseguiria dormir naquela noite. Talvez nunca mais. E limpar tudo poderia ajud-la a esquecer Sean por um tempo. Cinco ou seis minutos, talvez.
Aproveitaria o tempo em que arrumava a loja para pensar em Sean e em como faria para terminar o namoro. Faltavam poucos dias para completar o ms lunar. Sean sabia disso, desde o incio.
Ser que discordaria em antecipar apenas alguns dias?
Ser?
CAPITULO XI

Sean estava to envolvido no trabalho quando 'ouviu a campainha, na noite seguinte, que levou um tempo para perceber que algum j tocara vrias vezes. Ainda assim, continuou mais alguns minutos diante do computador, completando as imagens e digitando as frases que tinha em mente, porque, muitas vezes durante o dia, no conseguira faz-lo, perturbado por outras cenas, que insistiam em voltar-lhe  mente, e nada tinham a ver com o novo jogo que desenvolvia.
A campainha continuava a tocar. E o som indesejado misturou-se s imagens de Alicia, que no lhe saam da mente. Erticas, explcitas e perturbadoras.
	Estou indo!  gritou para o visitante inesperado, enquanto atravessava o assoalho de madeira, para abrir a porta.
 Por que tanta pressa?  resmungou.
Mas ao ver quem estava do outro lado, sorriu.
	Alicia! Entre.
Ela vestia uma saia florida e uma blusa amarela, e tinha no rosto uma expresso de ansiedade. Sabia como afastar aquela expresso do rosto bonito, pensou, sorrindo.
Sem dizer nada, puxou-a, tomando-a nos braos e beijando-a com paixo. Fechando a porta, apoiou-a contra a parede, aprofundando o beijo, apertando-a com tanta fora, que os seios esmagavam-se contra o peito dele.
Como era bom abra-la, sentir as curvas suaves e femininas. Mal podia acreditar que menos de vinte e quatro horas haviam passado, desde que a tivera nos braos. Era como se toda uma vida houvesse passado, desde que a tocara e beijara.
Alicia parecia sentir o mesmo, j que correspondeu de imediato, enterrando os dedos nos cabelos de Sean, descendo a outra mo pelas costas fortes, puxando-o contra o prprio corpo. Ele reagiu, esfregando os quadris nos dela, em um movimento ntimo, lnguido, fazendo-a gemer.
No queria solt-la, era to bom estar com ela. Jamais sentira algo assim, e queria continuar por mais de um ms lunar. E no por causa de Finn. A aposta era apenas uma lembrana, que no fazia mais sentido. Era grato ao irmo por t-lo instigado a namorar Alicia, s que no importava mais. Queria continuar com ela, e algo lhe dizia que era por mais dos dois meses do plano. Muito mais. Nem podia pensar em terminar tudo. De jeito nenhum.
Por um longo tempo permaneceram abraados, como se quisessem compensar a longa ausncia, dizendo, sem palavras, como tinham sentido falta um do outro. Ao sentir a carcia, Sean lembrou de como os cabelos dela, sedosos e brilhantes, haviam coberto os corpos nus, como uma cascata, enquanto faziam amor.
A lembrana e a sensao de t-la nos braos foram suficientes para Sean se excitar. Faminto, deslizou a mo pelos quadris, subindo para a cintura, at chegar ao seio. Com o polegar, acariciou o mamilo que enrijeceu sob a blusa fina. Ento, baixou a cabea, beijando-a no pescoo e no colo, saboreando cada pedacinho do corpo macio e quente.
Tinha acabado de abrir o terceiro boto da blusa, revelando a renda cor de champanhe do suti, quando ela ficou rgida. Mas de um modo estranho, percebeu Sean, como se estivesse com medo.
Imediatamente ele se afastou um pouco para fit-la.
Medo. Definitivamente, ela estava com medo. E algo mais, que o deixou alarmado.
	Alicia? Algum problema?
Ela assentiu lentamente, mas no disse nada, continuando a fit-lo com os olhos cheios de tristeza. Ele no podia imaginar o que teria provocado isso, tudo estava correndo to bem entre eles. Ou no? Ela gostara tanto quanto ele. Ou no?
	O que foi?  perguntou.  O que h de errado?
Por um momento, ele pensou que no fosse responder, uma vez que evitava fit-lo. Por fim, disse em uma voz pausada, porm firme.
	No podemos mais nos ver.
O efeito seria o mesmo se ela houvesse dado um golpe baixo, atingindo-o na virilha, pensou Sean, escondendo a surpresa e a dor.
Esperando que ela no notasse o que sentia, perguntou lentamente:
	Do que est falando?
	No podemos mais nos ver  repetiu, sem dar qualquer explicao.
Sean apenas conseguiu sussurrar:
	Alicia...
Ele disse a si mesmo que no estava demonstrando medo, desespero e incerteza, embora fosse exatamente o que sentia. Como no poderiam mais se encontrar? Depois de tudo que haviam compartilhado? Depois do que acontecera no dia anterior? Do que ela estava falando?
	Sinto muito, Sean  disse, evitando fit-lo diretamente.  Mas no deveria estar surpreso.
Ele arqueou as sobrancelhas, mal acreditando no que ouvia.
	Surpreso?  repetiu Sean.  No, no  surpresa. Melhor seria dizer um choque, um choque completo.
Ela engoliu em seco, tentando olhar por cima do ombro esquerdo de Sean, para evitar o olhar intenso. E quando ele mudou de posio, desviou novamente o rosto, incapaz de fit-lo.
	Voc sabia das regras  lembrou Alicia.  Desde o comeo. Falta menos de uma semana para completarmos um ms lunar.
	Sim, mas ainda temos quatro dias  disse ele. E o resto de nossas vidas, acrescentou, para si mesmo. De algum modo, achou que era melhor no expressar em voz alta o pensamento.
No porque temia que Alicia no acreditasse, mas porque ele mesmo mal podia acreditar no que estava pensando.
Ainda assim, o sentimento era claro e insistente: queria passar o resto da vida com Alicia Pulaski. Entre todas as garotas de Marigold, queria Alicia. A mulher que no namorava algum mais do que quatro semanas.
Sean lembrou-se de que nem sempre fora assim, e que ela quase se casara duas vezes. Mas ser que queria se casar com ela? Namor-la o resto da vida era uma coisa. Mas, casar? No seria um tanto radical?
E mesmo que quisesse, ser que ela o aceitaria? Tinha sido abandonada no altar por duas vezes. E isso a levara a estabelecer a regra do ms lunar. Ser que se arriscaria a ser deixada no altar uma terceira vez?
No que isso fosse acontecer da terceira vez.
Nem Sean conseguia convencer-se disso.
Aquele no era o modo como imaginara terminar o dia. Tinha pensado em telefonar para Alicia, assim que acabasse o trabalho, para convid-la para jantar, de preferncia em um lugar aconchegante, escuro e quieto. Ento, poderiam voltar para a casa dela e fazer amor a noite toda, sem pressa, naquela cama deliciosamente feminina.
Tinha conseguido suportar a ausncia dela o dia todo, na certeza de que se encontrariam  noite. E agora ela dizia que a separao era definitiva?
	No podemos mais nos ver?
Repetir a pergunta parecia tolice, at mesmo para Sean, mas ele no sabia o que dizer. Era como se seu crebro estivesse recusando a informao.
	No  disse ela, evitando fit-lo.  Sinto muito.
	Sente muito  repetiu ele, sabendo que mais parecia um papagaio, repetindo tudo o que ela dizia.
Dizendo a si mesmo para aparentar calma e no revelar a decepo, forou-se a agir normalmente. Mas no estava apenas decepcionado, estava desesperado. Era impossvel parecer calmo.
	Posso apostar que sente muito  resmungou, sem conseguir conter-se.
	Voc sabia, Sean, conhecia a regra. Sabia que no ia durar mais de quatro semanas...
	O que eu sabia...  interrompeu-se ele para logo depois continuar:  O que eu sei...
Mas as palavras falharam, atropeladas pelos pensamentos. Havia apenas uma coisa da qual tinha certeza. No podia deixar que Alicia terminasse tudo. Ainda no. Nem desse modo. Mas o que poderia fazer?
Droga  praguejou, afastando-se dela. Virando-se, passou a mo pelos cabelos, desejando que as batidas de seu corao voltassem ao normal. Queria pensar em algo que a fizesse mudar de ideia.
Ao ver a reao de Sean, o primeiro instinto de Alicia foi voltar atrs. Estava brincando! S passei para ver se queria jantar comigo! Mas no podia. Ele agia como algum que houvesse sofrido um golpe, e a expresso do rosto revelava dor e desespero.
Ento, percebeu que no devia estar surpresa com essa reao, pois sabia que ele gostava dela. Tinha sido carinhoso e gentil desde o primeiro momento.
Mas aquele era o modo como tratava as mulheres, lembrou a si mesma. Ele adorava as mulheres. Todas as mulheres. Estava reagindo daquela maneira apenas porque uma mulher terminava o namoro. No porque estivesse realmente sofrendo, mas porque estava acostumado a terminar a relao.
	Sean...  tentou ela novamente, mas no conseguiu dizer mais nada.
Ainda assim, ele virou-se e fitou-a, como se esperasse para ouvir o que ia dizer.
Ela gostaria de saber o que dizer.
	Sinto muito  disse novamente, sabendo que nem de longe descrevia o que estava sentindo.
Ele fitou-a, imvel, por um longo momento, antes de assentir.
	J entendi essa parte.
Alicia engoliu em seco e conseguiu falar, baixinho:
	Foi... muito bom.
Dessa vez, ele nem sequer assentiu, fitando-a como se no a conhecesse.
	Espero que possamos... ser amigos.
Ele estreitou os olhos ao fit-la, e Alicia soube que jamais seria possvel. A ltima coisa que ela mesma desejava, era ser amiga de Sean Monahan. No via como poderiam encontrar-se na rua, dizer bom-dia, e trocar ideias sobre as ltimas novidades de Marigold. Ou sobre quem estava namorando quem. Especialmente Sean Monahan.
O pensamento a fez lembrar-se do porqu estava terminando o namoro. Porque, mesmo que se arriscasse a quebrar a regra do ms lunar, mesmo que ousasse arriscar novamente o corao, jogando para o alto toda a cautela, Sean, ela sabia, no homem que assumia compromissos.
 claro que poderiam namorar algum tempo. Mas Sean acabaria se cansando e terminando tudo. Nos dois anos em que vivera em Marigold, Alicia ouvira histrias suficientes, e vira com seus prprios olhos, que Sean mudava de namorada rapidamente. Ele era inconstante.
 claro que ela tambm namorara muitos rapazes.
Mas no era a mesma coisa. Nunca se envolvera de verdade nem enganara nenhum deles. Todos sabiam da regra, e o motivo de mant-la era evitar um relacionamento mais intenso. Alicia a estabelecera para evitar apaixonar-se de novo, mas fora impossvel ao conhecer Sean. Infelizmente Sean no era capaz de se apaixonar, embora parecesse magoado e infeliz.
Era melhor assim, repetiu consigo mesma. Melhor para ambos. O relacionamento acabaria de qualquer modo, e era melhor que fosse agora. Pelo menos, Sean teria boas lembranas dela, em vez de record-la como mais uma garota de quem havia se cansado. E seria especial para ele. A garota que terminara o namoro, antes que ele decidisse faz-lo.
Ele seria especial para ela. Para sempre.
	Tenho de ir  disse, de repente.
Lembrando que ele havia desabotoado sua blusa, corou, abotoando-a depressa. Sean a observava com a mesma ateno que um falco teria dado a sua presa.
Ela virou-se, segurando a maaneta e repetiu:
	Tenho de ir.
Nem por um instante, desviou o olhar de Sean. No porque no confiasse nele, mas porque sabia que era a ltima vez que o veria to prximo. Um frio intenso pareceu percorrer-lhe o corpo ao perceber isso.
Ele no disse nada, apenas continuou a observ-la, em um silncio controlado.
	Nos vemos por a?  perguntou, em um esforo para faz-lo responder.
Sean colocou as mos nos quadris, os olhos azuis faiscando.
	Sim  confirmou, em um tom amargo.  Vamos nos ver por a. Marigold  uma cidade pequena, no conseguiremos evitar um ao outro todo o tempo. O que  uma pena.
Alicia achou que merecia essa resposta, e tentou no demonstrar sua mgoa.
	Aparea na padaria.
	Com certeza  assentiu Sean bruscamente.  Na primeira oportunidade.
Alicia saiu, fechando a porta atrs de si e lutando contra as lgrimas. O corpo todo tremia. Uma oportunidade, pensou. Talvez fosse tudo o que eles precisavam.

CAPITULO XII

Trs segundas-feiras depois de ter dito a Sean que no podiam mais se ver, Alicia viu-se em casa, sozinha, no nico dia de folga da semana. Planejara colocar seus documentos em ordem, mas ainda no conseguira fazer nada.
J eram quase onze horas da manh, e continuava vestida com a camisola de algodo branco, sem mangas, e nem se importara em prender os cabelos. Encolhida no sof, lia o jornal.
Ou, pelo menos, olhava para o jornal. Na verdade, pouco se importava com as notcias, nem se importava com as coisas que precisava fazer em casa, no nico dia livre da semana. Tudo que queria era voltar para a cama, puxar as cobertas sobre a cabea, e fingir que o resto do mundo no existia.
Desde que terminara o namoro com Sean, no tinha motivao para nada, perdera o interesse por tudo, e sentia-se muito infeliz. Na verdade, nada mais tinha graa, nem mesmo o trabalho. Sua vida parecia completamente vazia, e sabia por qu. Nunca mais vira Sean e era a nica culpada por isso.
Quando lhe dissera que no poderiam mais se ver, Alicia no imaginara que ele fosse fazer de tudo para que no se encontrassem, afinal, no precisava levar to a srio o que ela dissera.
Ele realmente sara da vida dela, alis, parecia ter desaparecido do planeta. No que se vissem muito, antes de terem comeado a namorar, mas ocasionalmente o via em Marigold. Viviam em uma cidade pequena, e parecia particularmente estranho no o ver nos meses de vero, quando todos passavam muito tempo fora de casa, e havia vrios eventos na cidade.
Ele morava perto da padaria, e imaginou que o veria, de vez em quando, passeando pela rua. Ou quando ela mesma passava em frente ao apartamento, quando precisava ir a algum lugar, e no havia outro caminho, de verdade, ela jurava, e era obrigada a ir por ali.
Nem mesmo a picape, que costumava ficar estacionada na rua, logo depois da esquina, estava por ali. No havia sinal de Sean. Ele parecia ter desaparecido completamente.
Se fosse supersticiosa, Alicia teria ficado preocupada com a possibilidade de, sem querer, ter feito um feitio para que ele desaparecesse. Mas estava comeando a entender que no era supersticiosa, apenas tola. Porque s uma mulher tola se apaixonaria por um homem como Sean Monahan. E s uma mulher mais tola ainda, t-lo-ia deixado ir embora.
Mas o que poderia ter feito?, perguntou a si mesma, enquanto tomava um gole de caf, e continuava a olhar para o jornal, sem o menor interesse. No poderia ter resistido a Sean, por mais que tentasse. E encarando a verdade, no teria conseguido no se apaixonar. Mas deix-lo ir... No tinha escolha. No podia mud-lo. Apenas Sean poderia faz-lo. E ele, certamente, no era homem de se apaixonava pela garota mais estranha de Marigold, no por Alicia Pulaski, a mulher que definia seus relacionamentos de acordo com as fases da lua.
Queria no ter inventado aquela regra estpida das fases da lua. Queria apenas ter esquecido os homens, completamente. A cada novo dia, seus sonhos ficavam mais impossveis e irreais. Naquele dia; por exemplo, seu maior desejo era que Sean Monahan aparecesse ali, jurasse amor eterno e lhe dissesse que no podia mais viver sem ela. Mas  claro que no ia acontecer...
De repente, um barulho a assustou.
Alicia ficou to surpresa ao ouvir a campainha, que deu um salto, deixando cair o jornal e respingando gotas de caf no prato. Ela estreitou os olhos, olhando a porta com expresso desconfiada, e, sem conseguir evitar que seu corao desse saltos, colocou a xcara sobre a mesa e caminhou para a porta. No era supersticiosa, lembrou, mas bem gostaria que seu desejo fosse atendido.
As batidas do corao se aceleraram ainda mais quando, ao abrir a porta, viu Sean Monahan. Em seguida, o corao quase falhou ao ver a expresso do rosto dele, um misto de melancolia e abandono, que ela sabia refletir seus prprios sentimentos. Afora isso, duas semanas e meia no tinham mudado muita coisa, pensou, observando os cabelos escuros e brilhantes, que estavam apenas um pouco mais compridos, e os olhos muito azuis, que pareciam cansados.
O desejo dominou-a outra vez, de modo quase incontrolvel, substituindo o vazio que a acompanhara nas ltimas semanas. Com esforo, controlou-se para no pux-lo para dentro, arrast-lo para o cho, e fazer amor, loucamente, ali mesmo.
Como queria que seus sonhos se tornassem realidade...
	Ol  disse, sem jeito.
	Ol  respondeu Sean, to sem jeito quanto ela.
Por longos momentos, apenas se fitaram, em silncio, como se cada um quisesse gravar cada detalhe do outro, como se quisessem ver se algo havia mudado, desde o ltimo encontro.
Alicia, por fim, quebrou o silncio, ao perguntar baixinho:
	O que est fazendo aqui? No estou dizendo para ir embora, no  isso  apressou-se em explicar.  Na verdade, se quiser...
 Ela hesitou, temendo revelar o que estivera desejando a manh inteira.  Isto ...  comeou, de novo. Mas calou-se, sem saber o que dizer, e fechou os olhos, evitando fit-lo.
	Posso entrar?  pediu Sean.
Ela abriu os olhos novamente, imaginando se ele ainda estaria ali ou se tudo fora apenas imaginao. Mas ali estava Sean, na varanda, lindo, e parecendo inseguro. No tinha como negar, nem pretendia faz-lo. Ainda assim, continuou parada, sem saber o que dizer.
Ao v-la hesitar, ele acrescentou:
	Por favor, Alicia. H algo que preciso lhe dizer.
A menos que diga que me ama, e quer ficar comigo para sempre, prefiro no ouvir.
	Por favor...  disse, novamente, em um tom ainda mais suave, uma expresso ansiosa no rosto.
Ele parecia to perdido, to terno, que o corao dela disparou. Imediatamente afastou-se, deixando-o entrar. No momento em que ele o fez, Alicia fechou a porta, forando-se a caminhar at o sof para sentar-se. Com um gesto, indicou a poltrona forrada de chintz, a sua frente. 
Ele olhou para a poltrona e, em seguida, para Alicia. Ento, adiantou-se, sentando ao lado dela no sof. Poucos centmetros os separavam, e ela adorou poder sentir o perfume masculino. Como sentira falta dele! Tinha esquecido como era bom, apenas ficar perto dele.
	Precisamos conversar  disse ele, antes que Alicia pudesse reclamar da proximidade, embora ela pouco parecesse disposta a fazer isso.
	No posso imaginar sobre o qu  disse com franqueza.
Ele observou-a atentamente, o olhar cheio de saudade. Algo dentro de Alicia comeou a se agitar.
	Deixamos alguns assuntos pendentes, em nossa ltima conversa.
Ela engoliu com dificuldade, desviando o olhar do dele, mas percebeu que no queria deixar de fit-lo.
	Pensei que... houvssemos esclarecido tudo, h algumas semanas.  Como podia mentir daquele jeito, pensou Alicia, imaginando se um raio no iria atingi-la. Mas no era supersticiosa, lembrou. Era apenas tola.
Sean assentiu lentamente, uma tristeza profunda revelando-se nos olhos azuis.
 Entendo que pense assim, j que foi voc quem decidiu terminar tudo.
	Sean...
	Mas no tive chance de falar o que pensava, naquele dia...  prosseguiu ele  ...e acho que o mnimo que pode fazer,  me ouvir agora.
Ela suspirou pesadamente, dizendo a si mesma que o pedido dele era mais que razovel, embora no tivesse certeza se gostaria do que ia ouvir.
	Eu a amo, Alicia.
Aquilo era exatamente o que tinha desejado ouvir, desde...
Ela fitou-o surpresa, percebendo que no era sua imaginao, que ele realmente dissera as palavras. Ainda assim, perguntou:
	O que disse?
A tenso dele relaxou, e os lbios curvaram-se em um sorriso. No era um sorriso amplo, mas com certeza era melhor do que a linha rgida que a boca de Sean formava, alguns minutos atrs.
	Eu disse que a amo  repetiu suavemente.  E cheguei  concluso de que  impossvel impedir esse sentimento.  Ele deu de ombros.  Basicamente...  continuou ele.  O que estou tentando dizer, Alicia,  que no quero viver sem voc.
Era muito estranho. Ningum conseguia ter todos os desejos atendidos, mas estava acontecendo com ela. Devia estar sonhando, tinha de estar. Devia ter cochilado no sof, enquanto lia o jornal, e sonhava com tudo que sempre havia desejado. E s para ter certeza, Alicia beliscou a prpria coxa.
	Ai!  gritou, ao sentir a dor. Talvez no estivesse sonhando.
Sean franziu as sobrancelhas, surpreso.
	Ai?  repetiu.  No era bem isso que eu esperava ouvir, ao dizer o que sinto.
Ela sacudiu a cabea, como se quisesse clarear os pensamentos.
	No, eu no quis dizer ai! por causa do que falou.  Ela interrompeu-se, temendo criar ainda mais confuso.  Eu s estava...  Ela suspirou.  Eu no entendo.
Ele sorriu de novo, dessa vez, ternamente.
	Que parte do eu te amo voc no entendeu? Ou foi no posso viver sem voc que a confundiu?
	E tudo, Sean  disse ela.  No entendi nada. Desculpe a franqueza, mas voc no  o tipo de homem que diz essas coisas, no  o tipo de homem que sente essas coisas.
Ele assentiu lentamente, parecendo resignado, olhando para um ponto alm dela, como se visse algo que estava l.
	H dois meses eu teria concordado com voc. Mas h dois meses, eu no a conhecia. No como a conheo agora.
	No vejo por que isso faz diferena.
Ele riu baixinho, mas sem alegria, e fitou-a diretamente.
No v?  perguntou incrdulo.  Alicia...
Sean observou-a atentamente, como se estivesse pensando cuidadosamente no que ia dizer. Ento, cobriu a mo dela com a sua, hesitando apenas um momento antes de entrelaar os dedos, palma contra palma. A pele dele era quente e macia contra a dela, e Alicia percebeu que quase esquecera como era to bom toc-lo. Sem pensar no que estava fazendo, apertou a mo dele com fora.
E pela primeira vez, em semanas, comeou a sentir-se viva outra vez.
	Sabe por que comecei a namor-la?  perguntou de repente.  Sabe por que eu a convidei para sair comigo?
Ela sacudiu a cabea lentamente.
	No. Sempre me perguntei o que teria visto em mim. Sei que no sou feia, ou algo assim, mas no sou o tipo de mulher que costuma namorar.
	Prestou ateno nas mulheres que namorei?  perguntou Sean, sorrindo.
	Bem, na verdade, sempre prestei ateno em voc  confessou Alicia.  H muito tempo.
Os olhos dele faiscaram diante dessa confisso, mas ele apenas sorriu, encorajando-a a prosseguir. Alicia, no entanto, ainda no estava pronta para dizer tudo.
	Ento por que me convidou para sair?
Ele suspirou, evidentemente desapontado porque ela no continuara as confisses.
	Porque meu irmo mais velho, Finn, desafiou-me a faz-lo.
Confusa, ela fitou-o com expresso de surpresa.
	Agora no entendo mesmo.
	No a convidei para sair porque  linda e desejvel  disse Sean.  Embora sempre tenha achado isso  acrescentou, depressa.  Nem a convidei porque desejava conhec-la melhor. Na verdade, se no fosse por Finn, jamais a teria convidado para sair. Eu era como todos em Marigold.
Achava-a...
	Liberada  completou Alicia, triste ao perceber a verdade.
Dessa vez foi Sean quem sacudiu a cabea, negando.
	Estranha  admitiu Sean.  Achava-a to diferente das outras mulheres, que, assim como os outros, achava que era estranha e esquisita. Por isso nunca a convidei para sair. At que Finn me desafiou a faz-lo.
Seria bom estar sonhando agora, pensou Alicia. Aquela era a ltima coisa que desejava ouvir.
	Por que est me contando isso?  perguntou, incapaz de disfarar a dor que sua voz revelava.
	Porque preciso que acredite que nunca planejei que isto acontecesse.
	O qu?  perguntou ela, sentindo-se miservel.
	Nunca planejei me apaixonar por voc  disse simplesmente.
Essa parte ela no sonhara. Alicia abriu a boca, surpresa ao v-lo dizer novamente as palavras. Ainda assim, insistiu:
	Voc... o qu?
	Eu me apaixonei por voc, Alicia. Deus sabe que no planejei, mas aconteceu. Eu a amo e no quero perd-la. Nunca.
Ainda confusa, ela fitou-o em silncio, incapaz de lidar com o que estava acontecendo. No sabia o que dizer, nem ao certo o que sentia.
Ele suspirou, mais uma vez, e tentou explicar.
	Meu irmo, Finn, passou a vida toda me desafiando sobre tudo que possa imaginar. Acho que me desafia desde a adolescncia, e isso tornou-se um hbito para ele. E eu sempre fui tolo o bastante para aceitar o desafio. E sempre, sempre, Finn saiu ganhando.
Ento, uma noite, alguns meses atrs, estvamos em um grupo, jogando cartas, quando algum falou em sua regra do ms lunar. Para encurtar a histria, Finn acabou me desafiando a namor-la por mais de um ms lunar. E eu, arrogante e convencido como sou, disse que seria o nico homem capaz de quebrar a regra. Na verdade, disse que a namoraria por dois meses lunares.
	Ento foi assim que tudo comeou?  perguntou Alicia.  Seu irmo desafiou-o a me namorar mais de um ms lunar, s para quebrar a minha regra?
Ele assentiu.
Agora ela estava realmente confusa.
	Mas voc no o fez  disse, tentando no pensar que, um dia, fora para Sean apenas parte de um jogo.  Mesmo quando terminei tudo, no tentou me convencer a mudar de ideia. Perdeu a aposta.
	 verdade  disse ele.  Porque naquele momento, o desafio de Finn era a ltima coisa que me importava. Perder a aposta no significava nada, porque voc tinha se tornado muito importante para mim.
	Mas...
	Escute, sei que agi mal, Alicia. Nunca deveria ter aceitado o desafio de Finn, nunca devia t-la visto como algo em que se pode apostar. Mas o que importa  que, assim que a conheci, descobri como  maravilhosa, inteligente, linda e divertida. E assim, acabei me apaixonando por voc.
Ela baixou a cabea, sentindo que algumas lgrimas insistiam em vir aos olhos.
Sean segurou a outra mo de Alicia, puxando-a para mais perto, e disse, muito srio:
	Pouco me importa perder a aposta para Finn. S no quero perd-la. Nunca.
Por um longo instante, ela apenas o fitou, completamente atnita com o que acabava de dizer. Por fim, murmurou:
	Oh, Sean...
Ela afastou as duas mos, apenas para atir-las ao pescoo dele, puxando-o para mais perto. Ento, enterrou o rosto na curva do pescoo de Sean, sentindo o perfume dele, e sussurrando algo que ele no entendeu.
Pelo menos, era um bom sinal, pensou Sean.
Tivera muito medo da recepo que encontraria ali. Medo que Alicia o mandasse embora, que no quisesse saber de um homem que a considerara parte de uma aposta, e que pouco se importava com o fato de ele estar apaixonado. E ele no a culparia, se agisse assim.
Mesmo apavorado, decidira vir. Tinha de vir. No podia viver sem Alicia. No tinha escolha, seno vir at ali e falar com ela. E agora estava feliz por ter vindo. Muito feliz.
Ele passou os braos  volta da cintura de Alicia e puxou-a para mais perto, temendo que ela mudasse de ideia. Alis, temera muitas coisas nas ltimas semanas.
Medo de perd-la, medo de que no correspondesse a seus sentimentos, medo de que ela jamais lhe perdoasse por ter agido como um adolescente tolo. Medo do que estava sentindo, pela primeira vez. Mas agora estava feliz, muito feliz, por ter se apaixonado.
Apaixonado, pensou, feliz, por Alicia Pulaski. Quem diria?
Lutara com todas as foras contra esse sentimento, naquelas ltimas duas semanas. Tentou dizer a si mesmo que a sensao de mgoa e abandono era apenas porque seu orgulho masculino fora ferido. Sempre fora o responsvel pelo fim dos relacionamentos, mas daquela vez, ela o abandonara. Tentou convencer-se de que era orgulho ferido, apenas isso.
Mas logo percebera que era muito mais. O que sentia era um vazio, uma solido profunda, que jamais experimentara antes. Ainda assim, tentou fingir que tudo desapareceria, to logo encontrasse outra mulher, bonita e desejvel.
Ento decidira passar alguns dias em Bloomington, para colocar uma distncia maior entre ele e Alicia. Em Bloomington havia a Universidade de Indiana, com garotas lindas e disponveis.
S que depois de conhecer dzias de garotas lindas e desejveis, Sean ainda sentia a mesma solido e o mesmo vazio de antes, porque as mulheres que encontrava no eram Alicia. E logo percebeu que no queria nenhuma delas. Queria...
Queria Alicia. Para sempre.
Ao pux-la para mais perto, colocou as mos nas costas, cobertas apenas pelo fino tecido da camisola. Ela ainda estava de camisola. Branca, fina e quase transparente. A camisola e... nada mais?
Ele deslizou as mos, percorrendo-lhe o corpo, sentindo apenas os cabelos sedosos e o tecido fino sob os dedos. Ela no usava mais nada, constatou, descendo as mos para os quadris. Nem calcinha, percebeu, dominado por um desejo intenso. E isso era muito conveniente. Alm de ertico.
Como se respondesse ao toque das mos dele, acomodou os quadris entre elas, murmurando algo que Sean no conseguiu entender, mas intuiu o que era. S para ter certeza, perguntou:
	O que disse?
Ela deslizou os dedos para a nuca de Sean, e afastou o rosto para fit-lo. Os olhos dela brilhavam, refletindo o que sentia por ele.
	Eu disse que o amo  repetiu, mergulhando os dedos nos cabelos dele.  Oh, Sean, eu o amo tanto.
E ele pde ver, ao fit-la, que era verdade.
	No et zangada comigo por causa da aposta?  per guntou, ainda duvidando do que era evidente.
	E uma razo melhor do que a que muitos homens tiveram para me namorar.
O sorriso dele desapareceu.
	Vou reduzir a p qualquer homem que j tenha encostado a mo em voc  jurou, em um impulso romntico.  Comeando com Chuck Nielssen.
O sorriso dela alargou-se.
	Eles no significaram nada para mim  assegurou. 
	Tenho certeza de que no.
Ela riu baixinho, respondendo  pergunta que ele fizera antes.
	No estou zangada porque s me convidou para sair por causa da aposta. Estou contente que afinal tenha seguido seu corao... Estou feliz porque se apaixonou por mim.
	Bem, acho que no foi s meu corao.
	No?  perguntou Alicia inocente.
	Foi meu corao e tambm meu...
Ela riu, e Sean beijou-a, dessa vez, mais apaixonadamente.
Ele colocou uma das mos entre os cabelos de Alicia, inclinando a cabea dela para trs. Alicia rendeu-se, abrindo os lbios para uma entrega completa, como uma amante ansiosa.
A paixo logo ameaou domin-los por completo. S ento Sean lembrou da cama de Alicia, grande, acolhedora e feminina, onde ainda no tivera oportunidade de fazer amor com ela, apesar de t-lo imaginado muitas vezes.
Com relutncia, afastou os lbios dos dela.
	Voc...  comeou com dificuldade, por causa da respirao
ofegante.  No est usando nada sob a camisola, no ?
Alicia sorriu sedutora.
	Ter de descobrir sozinho.
Ele riu baixinho.
	Esse  um desafio ao qual no posso resistir.
Antes que pudesse perceber o que ele planejava, Sean ficou de p, puxando Alicia. Ela gritou surpresa, mas passou os braos pelo pescoo dele, beijando-o. Os cabelos dela cobriam os braos de Sean, os pulsos, as mos, como uma cascata de fogo. Ele mal conseguiu atravessar o corredor, carregando-a no colo.
Ela no arrumara a cama, e os lenis e travesseiros desarrumados eram um convite irresistvel. Sean colocou-a, sem cerimnia, no centro da cama, e imediatamente comeou a despir-se. Alicia observava encantada, enquanto ele arrancava depressa as roupas, ficando nu na frente dela.
	Depressa  pediu ela.
	Est bem  concordou ele.
Logo pegava a camisinha no bolso da cala, colocando-a sobre o criado-mudo, ao alcance da mo.
Alicia abriu os braos em um convite silencioso, que Sean no pde ignorar. Ele aproximou-se, ajoelhando ao lado dela, e beijando-a demoradamente. Mergulhando as mos nos cabelos sedosos, acariciou-os, mas parou ao sentir os dedos de Alicia explorando-o, movendo-se sedutoramente. As mos dela percorreram-lhe as costas nuas, as ndegas firmes, acariciando e apertando. S o fino tecido da camisola os separava, mas havia algo de to ertico nisso, que Sean no fez nenhum gesto para tir-la.
Ainda.
Em vez disso, continuou a observar como o tecido moldava-se aos quadris, s coxas. Alicia sussurrou impaciente, em um pedido silencioso para que a tirasse, e quando ele a ignorou, puxou a barra da camisola.
	No  pediu Sean, impedindo-a de tir-la.
Ela fitou-o surpresa.
	Ainda no  disse ele.
Ela sorriu sedutoramente e continuou a acarici-lo. Dessa vez as mos desceram pelo peito musculoso, o ventre liso, o membro volumoso. Pegando o tecido, roou-o sobre o membro sensvel. Sean ficou imvel, os punhos fechados, agarrados ao tecido,  volta da cintura dela. Sem perceber o que estava fazendo, ele erguia a camisola, expondo as coxas, os quadris, os seios, at inclinar-se e tomar na boca um mamilo ereto, sugando, mordiscando e lambendo.
Alicia gemeu, enquanto ele deslizava a lngua, sugando com mais fora. Mesmo assim, ela no parou de acarici-lo, dessa vez com a mo nua, sentindo-o rijo contra a palma.
Por fim, quando ele no podia mais suportar, estendeu a mo e pegou a camisinha, colocando-a depressa. Ento, deitou Alicia sobre a cama, mas em vez de tirar a camisola, apenas a deixou erguida at os seios. Ajoelhando-se  frente dela, fez com que o abraasse com as pernas, passando-as por sua cintura. Os cabelos dela espalhavam-se sobre a cama, como um sol brilhante, enquanto se agarrava aos braos de Sean.
Ele nem podia imaginar por que merecera tanta belezatanto amor, mas sabia que faria qualquer coisa para no perd-la.
	Case-se comigo  pediu, no mesmo instante em que a invadia na entrada da fenda mida e macia com dedos firmes.
Alicia fechou os olhos e ofegou ao sentir a carcia, mas no respondeu. Ento Sean provocou-a ainda mais intimamente.
	Alicia  disse baixinho.  Eu a amo. Case-se comigo. Por favor.
Ela ergueu os quadris para receber melhor as carcias ousadas, e Sean no hesitou em satisfaz-la.
	Case-se comigo  pediu pela terceira vez.
Alicia abriu os olhos, e ele viu-lhe o olhar sonhador.
	Sim  respondeu.  Quero me casar com voc. Eu o amo. Mas no me deixe...
	No vou deix-la nunca  prometeu, vendo que ela acreditava em suas promessas.
	Faa amor comigo agora  pediu ela.
Sean assentiu, deslizando as mos para as coxas macias. Com a certeza de que as promessas seriam cumpridas, penetrou-a, investindo uma e outra vez, mais rpido, mais fundo. Logo ela acompanhava o ritmo, mexendo os quadris, enquanto ele colocava um travesseiro sob eles, para penetr-la ainda mais intensamente. Longos instantes depois, chegaram juntos ao clmax, e juntos explodiram em paixo. E depois, voltaram juntos  realidade, que jamais poderiam ter sonhado um dia.
Mais tarde, um nos braos do outro, com os raios de sol filtrando-se pela janela, sabiam que aquela era a vida que desejavam viver.
	No que est pensando?  perguntou Sean, acariciando os cabelos de Alicia.
Ela pousou a mo sobre o peito dele, bem em cima do corao.
	Estava aqui, deitada, imaginando que tudo isto comeou com uma aposta.
Ele riu satisfeito e puxou-a para mais perto, passando os dois braos, possessivamente,  volta do corpo dela.
	Prefiro pensar em voc como um desafio  disse ele.
Ela riu.
	Um desafio? Ainda me v desse modo?
Ela percebeu que Sean assentia.
	Sim.  assim como a vejo, e espero que isso nunca mude, Alicia. Adoro desafios!

EPLOGO

O Natal era realmente uma poca maravilhosa para se casar, pensava Sean, no terceiro sbado de dezembro, enquanto se olhava em um espelho trincado que havia na sacristia. Ajustou mais uma vez a gravata borboleta, sobre o colarinho branco, e ento virou-se para observar os quatro irmos, que estavam vestidos formalmente, como ele. Do lado de fora da minscula janela atrs deles, o sol comeava a baixar atrs das rvores, tingindo de ouro a Igreja Catlica de Nossa Senhora de Lourdes, dando  construo antiga um brilho especial.
Todos os irmos pareciam mais respeitveis e sofisticados, do que Sean jamais vira, e agiam de modo diferente do habitual, sem provoc-lo o tempo todo. Do lado de fora da sacristia, ouvia-se uma msica de Bach, tocando na igreja cheia de parentes e amigos. A me de Sean por certo estava tentando esconder as lgrimas, sentada na primeira fila, enquanto o pai sorria, orgulhoso, porque o primeiro filho resolvera se casar. Tessie, a nica irm, casara-se apenas um ms antes.
A famlia de Alicia tambm chegara  cidade, dois dias antes da celebrao. Agora, as duas irms dela e uma prima, alm da irm de Sean, estavam vestidas em veludo, prontas para serem as damas de honra. Tudo, pensou ele, estava dando certo. Tudo estava exatamente como devia ser. S faltava uma coisa.
A noiva.
Ningum sabia onde ela estava, nem o que poderia t-la atrasado. E Sean estava comeando a suar. Disse a si mesmo para no se preocupar, que Alicia no era exatamente pontual, que as noivas levavam muito tempo para colocar seus vestidos elaborados, e todos os outros detalhes. Tudo isso poderia atras-la.
Ento, lembrou que Alicia tambm no costumava se atrasar, e que todos que vinham ao casamento j haviam chegado, e estavam esperando.
A ltima vez que tinham visto Alicia, disseram as damas de honra, ela estava em casa, acabando de arrumar as malas para a lua-de-mel. Ela havia dito para irem na frente, que logo as seguiria. Elas obedeceram relutantes e estavam na igreja havia um bom tempo.
Sean telefonara duas vezes para a casa dela, mas a ligao sempre caa na secretria eletrnica. No tinha ideia de onde poderia estar. Ainda faltavam dez minutos para o incio da cerimnia. Dez longos minutos, lembrou. Dez interminveis minutos.
	Onde ela est?  perguntou, de repente, incapaz de conter a impacincia, olhando para o irmo mais velho, e padrinho.
Afinal, Finn era o responsvel por tudo. Era quem desafiara Sean a namor-la.
Finn ergueu as mos, em um gesto de rendio. O terno elegante era igual ao de Sean, exceto pela rosa, presa na lapela, que como a dos outros irmos era vermelha, em vez de branca.
	Calma  pediu.  Tenho certeza de que ela estar aqui em um minuto.
	Tem certeza?  repetiu Sean.  E por que isso no me deixa nem um pouco mais tranquilo?
Finn riu gostosamente ao ver o desespero do irmo.
	No fique to nervoso, irmozinho. Ela vir.
	Quando?
Finn riu ainda mais.
	Quer se acalmar? Nunca o vi desse jeito!
	Tenho um motivo  resmungou Sean.
	E qual ?  perguntou Finn, sem deixar de sorrir.
	Nunca me senti assim!
	Como?  perguntou Finn, no resistindo  tentao de provoc-lo.  Louco de amor por uma garota, e com tanto medo de perd-la, que resolveu fazer algo drstico como casar-se com ela?
	Isso mesmo  assentiu Sean.
	Sei bem como   disse Finn, dessa vez, muito srio.
Era verdade, pensou Sean. Mas a ltima coisa que queria
era trazer de volta a lembrana de Violet Demarest, que tanto entristecia o irmo. Olhando para os outros irmos, viu que Cullen ria.
	De que est rindo, garoto?  perguntou Sean.
	Nada  respondeu Cullen, ainda rindo.
Sean fez uma careta.
	Bem, no devia rir. Eu vi como Isabel Trent est deixando-o maluco.
Cullen parou de rir, com o rosto muito corado.  No sei do que est falando.
	Eu a vi sentada na igreja, do lado dos convidados do noivo  continuou Sean impiedoso.  E vi quando a acompanhou at o banco  acrescentou, sem pena.  Tambm via expresso de seu rosto, ao olhar para ela.
Cullen parou de rir, e no disse mais nada.
	Escute, Sean  comeou Finn novamente.  Pare de se preocupar. Alicia, no sei por qual motivo, ama-o de verdade.
Ela vir. No se preocupe.
Sean olhou mais uma vez para o relgio de pulso e imaginou onde ela estaria. De repente, algum bateu na porta da sacristia. Imediatamente Sean a abriu, deixando entrar a irm, Tessie, que parecia feliz e excitada, com o rosto muito corado.
	Ela chegou  disse depressa.  Est tudo bem. Vamos comear.
S ento Sean percebeu como temera ser deixado no altar. S ento, percebeu como ficaria arrasado se ela no aparecesse. S ento percebeu como seu amor era profundo, e entendeu como queria viver com ela, para sempre.
	O que aconteceu?  perguntou, a voz ainda tensa.
Tessie sorriu.
	Aquele micronibus que ela tem quebrou na rua Chestnut.  Teve que correr seis quarteires at aqui.
Finn comeou a rir novamente, e dessa vez Sean o acompanhou. No via a hora de a cerimnia acabar, para ficar sozinho com Alicia, e viver o resto da vida com ela.
Tessie saiu, e os irmos a acompanharam. A msica rgo soou mais alta, quando os irmos Monahan entrarain na igreja. Assim que chegaram ao altar, Sean viu que as damas I de honra entravam, lindas e, sem dvida, felizes.
E ento, a msica mudou para a Marcha Nupcial, e Sean I no viu mais nada. Porque nada na igreja, ou no mundo, era | mais importante do que Alicia Pulaski.
Ele a vira de branco muitas vezes, sempre que passava na I padaria, e tambm quando usava aquela camisola branca, que achava to excitante. Mas nunca a vira to linda como naquele [ momento. O rosto estava corado, e alguns fios de cabelo escapavam, de propsito, do penteado que fizera para o casamento. Uma coroa de flores brancas cobria-lhe a cabea, e um vu de delicada renda a envolvia. Alicia carregava um buque de gard-nias, e Sean pensou que jamais se cansaria de olhar para ela.
Lentamente, Alicia entrou na igreja, caminhando para Sean, para a vida que teriam juntos. E quando se aproximou, ele tomou-lhe a mo.
	Pensei que no viesse  disse baixinho.
	Est brincando?  Sorriu Alicia.  Depois do trabalho que tive para arrumar meus cabelos deste jeito?
Ele fitou-a, adorando o que via nos olhos cor de mbar. No, ele nunca se cansaria dela.
	Eu a amo, Alicia  disse baixinho.  Nunca me abandone.
Ela sorriu.
	Eu o amo, Sean. Sempre amarei.
E viraram-se para o padre, plenos de amor e alegria, cheios de felicidade, para sempre. Ambos sabiam dos desafios que teriam pela frente, e ambos compreendiam que nunca mais precisariam arriscar seu amor.

FIM

